Cegos por conveniência

ÉRICO VERÍSSIMO*

Nesta semana, comissões em Roraima formadas por vários órgãos públicos vasculharam a Maternidade Nossa Senhora de Nazaré, a Penitenciária Agrícola de Monte Cristo e ainda analisaram a situação dos imigrantes venezuelanos no Estado, tudo para emitir relatórios apontando problemas recorrentes, óbvios e que saltam aos olhos de qualquer ser minimamente informado. Com um desconto para a imigração venezuelana, algo que vai além da “vontade política” ou do controle das autoridades locais, as unidades prisionais e hospitalares roraimenses não precisam de “grupos de estudo” para que se aponte a realidade de cada uma.

As situações da penitenciária e da maternidade não podem ser tratadas como se novidades fossem, pois há muito são noticiadas, senão diariamente, semanalmente, nos quatro cantos de Roraima. Atraso na alimentação é algo que constantemente aflige pacientes que precisam da Nossa Senhora de Nazaré. Em comum com o que se serve para os detentos, a qualidade da alimentação. As más línguas acusam o governo de favorecer uma empresa “amiga” que fornece refeições para o Estado recebendo altos valores para uma prestação de serviço porco.

“O que se tem é um retrato acabado de como se encontram a Saúde e a Segurança, e essa imagem nunca precisou de ‘grupos especializados’ para ser levada à população. Os problemas não podem ser tratados como se novidades fossem, pois há muito tempo são noticiados, senão diariamente, semanalmente”

Outro setor afetado pela incompetência da gestão pepista é o da limpeza. Volta e meia as terceirizadas são acusadas de atrasar salários de funcionários. Os contratados dizem que a culpa é da administração estadual que não repassa a verba para tal fim. O que se tem é um retrato acabado de como se encontram a Saúde e a Segurança estaduais, e essa imagem nunca precisou de “grupos especializados” para ser levada à população.

Mas, pelo menos uma decisão louvável após a exposição maciça desses problemas: o governo do Estado resolveu anunciar a contratação de uma nova empresa para servir as refeições nas unidades de saúde. Se não houver o favorecimento de outra “empresa amiga”, já é um bom começo.

Quanto à situação nas unidades prisionais, chega a parecer piada o que se relatou à Assembleia Legislativa: “falta de acesso à saúde, à educação, a trabalho e de informações sobre pessoas privadas de liberdade” constam do relatório feito pelo Ministério da Justiça. No CSE, se encontrou “violência e tortura generalizada”. Os mais de 30 presos mortos na Penitenciária Agrícola, as outras tantas mortes pontuais e as incontáveis fugas não foram suficientes para sabermos a real situação do sistema prisional do Estado?

E para completar o quadro, o presidente da Comissão de Direitos Humanos da Assembleia, o petista Evangelista Siqueira, em sua terna inocência, se mostrou “preocupado” com o que foi apresentado pela comissão do Ministério da Justiça e, como se descobrisse a pólvora, destacou que “o sistema prisional tem na sua essência ‘ressocializar os ‘reeducandos’ e, nestas condições apontadas no relatório, sabemos que não é construtivo e que não ajuda a ressocializar”.

A impressão que se tem é que algumas “autoridades” estão mais perdidas do que cego em tiroteio, ainda que a cegueira de algumas delas seja por conveniência e incapacidade de admitir que o sistema há muito está falido. Mas, com qual interesse elas se mantêm “cegas”? Talvez uma comissão consiga apurar.

*O autor é editor-adjunto do RORAIMA em Tempo. e_verissimo@hotmail.com