Artigo

Um fim mais do que anunciado

Créditos: ÉRICO VERÍSSIMO

Por ÉRICO VERÍSSIMO*

 

"Infelizmente, a distribuição de cargos e o favorecimento de "apoiadores" fazem parte do ritual de governança adotado pela maioria esmagadora dos "escolhidos pelo povo". Mas a bem da verdade, justiça seja feita, sem saber lidar com a coisa pública e muito menos com as demandas da população rotineiramente feitas a quem ocupa o Palácio do Governo, Suely entrou pelas portas dos fundos".

O fim do governo de Suely Campos (PP) era previsível desde o momento em que, ao assumir o mandato, em 2015, ela baixou como um dos primeiros atos a farra de nomeações de parentes e aderentes em cargos do primeiro escalão. O que, de imediato, provocou a reação dos órgãos de fiscalização, Justiça e a sociedade em geral. Sem pulso nem bom senso para tomar decisões e manter a governabilidade, a mandatária se perdeu entre a o "desejo" de contemplar os seus e o imperativo de atender a todos, uma das funções precípuas do cargo para o qual foi eleita. Note-se que, como em todo regime democrático, não deve haver distinção entre os que a elegeram e os que votaram em outros candidatos. Afinal, terminado o pleito e como diz a Constituição, todos são iguais perante a lei.

Infelizmente, a distribuição de cargos e o favorecimento de "apoiadores" fazem parte do ritual de governança adotado pela maioria esmagadora dos "escolhidos pelo povo". Mas a bem da verdade, justiça seja feita, sem saber lidar com a coisa pública e muito menos com as demandas da população rotineiramente feitas a quem ocupa o Palácio do Governo, Suely entrou pelas portas dos fundos. Teve que substituir (muitos creem que a contragosto) o marido, Neudo Campos, então candidato ao governo, impedido pela Justiça de disputar as eleições por ser ficha suja condenado no "escândalo dos gafanhotos".

Isso tudo, todavia, não o impediu de fazer com que a mulher alcançasse a vitória. Assim como Lula elegeu um "poste" anos atrás, o ex-governador de Roraima elegeu uma "pilastra", guardadas as devidas proporções, embora na comparação a debacle foi igualmente devastadora. É que, assim como a ungida do ex-presidente fez um estrago imensurável no País, Suely não ficou para trás no seu desgoverno em Roraima e decidiu copiar a quebradeira promovida por Dilma Rousseff e sua turma.

"Impichada" na metade do mandato, a ex-presidente petista foi apeada do cargo antes de afundar o Brasil de vez, para a sorte de todos. O mesmo não aconteceu com Suely, que conseguiu, em meio à tentativa de impeachment, engavetada pela ALE, se manter no poder até o fim (e que fim!). Todavia, teve que se esconder entre as paredes do Palácio Hélio Campos, excluindo contas de redes sociais e ignorando as reivindicações de milhares de servidores públicos. Trabalhadores que, graças a um desastre governamental sem precedentes, não recebem seus salários, muitos deles sobrevivendo da caridade dos solidários.

No estertor do governo, Suely se faz de cega, surda e muda. Mas a sensibilidade que lhe falta diante dos protestos sobra-lhe para lidar com a prisão do filho, Guilherme Campos, envolvido num esquema de desvio milionário do Sistema Prisional de Roraima, de acordo com a Polícia Federal. Talvez as operações da PF despertem nela não apenas a sensibilidade "adormecida", mas a façam dar a cara e enfrentar a realidade. Aquela que começou a se desenhar desde a escolha de nomeados para cargos de primeiro escalão e alicerçada, entre outras coisas, sobre uma inabalável certeza de inatingibilidade.

 

*O autor é jornalista e editor do jornal RORAIMA EM TEMPO.

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