Editorial

O Brasil já tem problemas de mais


O Brasil tem três grandes problemas imediatos: um déficit gigantesco nas contas do governo, um desemprego absurdamente elevado e um sistema político que precisa ser reformado. A campanha eleitoral deveria focar nesses aspectos, mas as candidaturas que despontam estão ocupadas em levar a eleição às últimas consequências numa disputa puramente ideológica. De um lado, o lulopetismo, de outro, o bolsonarismo, ambos movimentos com tendências autoritárias.

O discurso radical, à esquerda e à direita, acaba excluindo as candidaturas mais moderadas do jogo e leva somente ao ódio e a pautas populistas, regressão política e social. Uns não aceitam que seu líder tenha sido preso pelos crimes que cometeu, outros acham que se resolve tudo na bala. Não há autocrítica, só revanchismo. Aumentar a divisão e deixar um país rachado em cima de temas que estão longe de ser nossos maiores problemas é o pior desfecho possível.

Eleição não é hora de destruir tudo o que está em volta e democracia não é aniquilação do "inimigo". Sempre há um "day after". O resultado, qualquer que seja, precisa ser reconhecido e legitimado, garantindo a governabilidade. Mas, com o que se desenha para o segundo turno, falta razão para otimismo. Não custa lembrar que o vencedor será o presidente de todos, e não só dos seus eleitores, e deve ter a capacidade de pacificar o País. Ao mesmo tempo, quem perde tem o dever de ajudar na travessia desses problemas, buscando os consensos possíveis.

O ranço de oposição sistemática para inviabilizar o futuro governo só fará piorar a crise. Há opções em todos os quadrantes do espectro político. A escolha dos eleitores - e o espírito democrático do eleito - pode definir como será o dia seguinte: um governo atrasado e um país ainda mais dividido; ou, então, um governo capaz de dialogar, com esperança de reconciliação em casa e abertura para o mundo civilizado. O País já tem problemas demais e o presidente não deveria ser mais um problema.


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