Em Tempo de Arte

Capoeira: uma arte que transforma vidas!


- Arquivo pessoal

"Eu vejo pessoas felizes em volta de uma roda, eu escuto palmas batendo ao som do berimbau, é um atabaque que chega chegando, junto com um pandeiro para animar. Eu vejo duas pessoas lutando com movimentos coordenados para ninguém apanhar e tem mais querendo entrar. Eu vejo vida dentro de uma roda é gingando para sentir e dar. Eu vejo capoeira que transforma vidas num piscar".

Olá queridos leitores, vocês já ouviram falar da capoeira ou já praticaram o esporte? Na edição de hoje do Em Tempo de Arte, vamos falar um pouco sobre esse tema que tem mudado e vem mudando a vida de muitos brasileiros e principalmente a de muitos roraimenses.

A capoeira é um esporte muito praticado no nosso país, faz parte da nossa cultura e mistura arte marcial, cultura popular e música. Existem diversas teorias sobre como a capoeira surgiu aqui no Brasil, a que mais se comenta é que ela foi trazida por escravos africanos que saíram da Angola. Longe dos seus costumes, forçados a fazer trabalhos pesados, falar o português e se converter ao catolicismo, os escravos encontraram na capoeira uma forma de se expressar e continuar ligados as suas origens. Eles praticavam a luta escondidos na mata e faziam também seus rituais culturais, muitos deles se defendiam utilizando só o corpo como arma de defesa.

Já se passaram muitos anos desde a escravidão, a capoeira veio se aperfeiçoando cada vez mais e existem outras teorias sobre o seu surgimento e se criaram muitos grupos. Há quem diga que a capoeira é coisa de bruxaria e outros afirmam que a capoeira é um esporte que vem transformando vidas.

O que entendemos através do que se vê na cidade de Boa Vista é que a capoeira é um esporte sensacional que trabalha o corpo e a mente, fatores importantes para o desenvolvimento de qualquer ser humano. Diferente de outras lutas, a capoeira utiliza a musicalidade durante seus treinos e apresentações, o que a torna uma verdadeira arte.

O gingado diferente, a movimentação do corpo de acordo com a batida do berimbau e demais instrumentos. Juntando também a mente e o equilíbrio, fazem com que a capoeira seja um esporte lindo de se ver e praticar.

Aqui na cidade de Boa Vista existem vários grupos que se destacam com seus projetos e apresentações, dentre eles se encontra o grupo Raízes Brasileira do Raiar do Sol, comandado pelo instrutor Nayllon Nadson Corrêa da Silva, popularmente conhecido dentro da capoeira como 'Tom'.

Conversamos um pouco com o instrutor Tom e ele nos constou sobre seu grupo e como a capoeira tem mudado a vida dos seus alunos. O instrutor sempre gostou de capoeira e quando tinha já a capacidade de dar aulas ele foi autorizado e instruído pelo mestre Caimbé a dar aulas, assim o projeto foi ganhando forma e hoje em dia ele tem um local no bairro Raiar do Sol onde administra aulas de graça para crianças, jovens e adultos que não tem condições financeiras para pagar as aulas de capoeira.

O mestre Caimbé é quem criou o grupo Raízes Brasileira aqui na cidade de Boa Vista, um grande precursor da capoeira em Roraima e bastante respeitado pelos demais grupos que praticam o mesmo esporte. O Tom foi instruído pelo mestre Caimbé e se sente grato por tudo que aprendeu e continua aprendendo com ele.

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Momento bate-papo!

Como são as suas aulas gratuitas?

Tom: As aulas são 100% gratuitas para crianças e adolescentes. Só a partir dos 18 anos que a pessoa paga uma taxa social, mas isso não é obrigatório. Se a pessoa for maior de idade e não tiver condições de pagar, ela não paga nada. Só paga a taxa social quem tiver numa situação mais favorável.

Por meio da capoeira você tem visto mudança na vida e no caráter dos seus alunos?

Tom: Sim, essa mudança é bem perceptível na atitude deles. Eles não têm mais vergonha em se assumir como negro ou como índio. Eles descobriram a própria identidade e todos eles estudam pensando num futuro melhor. Tem pessoas que já passaram pelo projeto que já possuem uma formação superior como o Scooby que é instrutor de capoeira e também professor de educação física, assim como ele tem outros que fazem faculdade. O convívio dos alunos melhorou muito, não os vemos metidos em confusão, os pais deles quase nunca vão à escola resolver problemas por causa da disciplina ou mau comportamento. Tudo isso foi influenciado dentro da capoeira já que nós trabalhamos muito a sociabilização e viver sempre em harmonia com as outras pessoas respeitando sempre as diferenças.

Como você enxerga a capoeira dentro da sua vida e de Roraima?

Tom: A capoeira dentro da minha vida é uma coisa bem significativa. Com o esporte eu tive oportunidade de conhecer vários lugares dentro e fora do Brasil, conheci muitas pessoas bem interessantes dentro da capoeira. Em Roraima, eu vejo que é um movimento que está se renovando, já teve um momento turbulento, mas já está se renovando com novas pessoas chegando e somando, tanto do grupo Raízes como de outros grupos. Nós gravamos nosso primeiro CD esse ano e está muito bom e agora em novembro iremos lançar o nosso primeiro livro da História da Capoeira em Roraima.

Você vê a capoeira como uma arte?

Tom: Sim, eu vejo a capoeira como uma arte, não uma arte marcial, mas sim uma arte que engloba várias artes como a musicalidade, a expressão corporal. Essa comunicação que nós temos dentro da roda, do jogo, toda essa expressão de ataque e defesa, essa encenação de movimentos que acontece dentro da roda é uma arte muito importante dentro da capoeira. A dança dentro da luta e toda essa perspectiva e esse universo que envolve a capoeira eu considero como uma arte muito completa.

Interessados em apoiar o projeto e oferecer patrocínio para que esta causa se expanda, pode se comunicar com o instrutor Tom, pelo número: (95)99122-9101.

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PERFIL DO ENTREVISTADO

Nayllon Nadson Corrêa da Silva tem 42 anos e pratica capoeira há 18 anos. É conhecido entre seus alunos e no meio da capoeira como Tom. Ele é formado em educação física, é instrutor de capoeira - corda verde - e não ganha nenhum valor monetário para dar aulas, ele faz isso porque gosta bastante e conta com o apoio de outros instrutores para continuar dando aulas e colaborar com o projeto. Em seu estabelecimento, ele atende uma média de 120 alunos de diferentes idades e proporciona as crianças, jovens e adultos da periferia uma opção diferente para passar o tempo, com a prática da capoeira o instrutor tem percebido mudanças importantes na vida dos seus alunos e na dele.

Tom adquiriu o galpão onde treina seus alunos através da mãe de um aluno que doou o terreno, motivada pela mudança que viu nos seus filhos graças à capoeira. Por motivos como este o Tom se vê dando aulas de capoeira à vida inteira, é algo que lhe dá satisfação e faz seu labor com amor.

"Eu me vejo ensinando capoeira a minha vida inteira e não pretendo parar, pois eu me sinto muito bem, com energia renovada e já faz parte da minha vida. O que me deixa mais feliz é ver quando o aluno consegue perceber a importância da capoeira dentro da vida dele. Quando o aluno consegue perceber que estando dentro da capoeira ele consegue refletir uma coisa muito boa para sociedade, não só conhecimento, mas a percepção de que a capoeira extrapolou aquele espaço e agora ela tá fazendo uma diferença dentro da vida dele. Isso que eu passo para meus alunos essa transposição da capoeira e não só dentro do galpão, mas para a vida inteira e os alunos estão percebendo isso também através de muita leitura e isso me deixa muito feliz!", finalizou Tom.

 


Bruna Alves e Gabriela Guimarães