Estratégia rasteira de gente muito ‘viva’

ÉRICO VERÍSSIMO*

Em seu primeiro depoimento ao juiz Sergio Moro para dar explicações sobre o tríplex no Guarujá, o ex-presidente Lula disse, como de costume, que não sabia de nada e ainda atribuiu à falecida mulher, Marisa Letícia, o papel de estar à frente das negociações para a possível compra do apartamento, pelo qual, segundo afirmou o petista, ele nunca teve interesse. É uma estratégia rasteira imputar responsabilidade a quem não pode mais se defender. Mas, até aí, nenhuma surpresa, pois o que vemos é apenas Lula sendo Lula e nada mais.

Na mesma semana, pras bandas de cá, o governo do Estado, ao tentar esclarecer o imbróglio sobre os R$ 3,5 milhões do Fundo Penitenciário, supostamente usados de forma indevida pela Secretaria Estadual de Justiça e Cidadania (Sejuc), também tenta agora jogar a culpa pra cima de um morto. Trata-se de Alziro Messa de Andrade Filho, que teve um ataque cardíaco em março deste ano após sofrer um acidente de barco. Ele era chefe do Departamento de Planejamento e Finanças (Deplaf) da secretaria. O então titular da pasta, Uziel de Castro, estava na mesma embarcação. Os dois saíam de um evento do governo ocorrido em Rorainópolis.

A falta de nota fiscal, processo e empenho levaram ao bloqueio de R$ 45 milhões do fundo. Para liberar esse valor, o Ministério Público Federal está fazendo diversas exigências ao governo do Estado, entre elas a identificação da quantidade e da natureza de cada valor, além de um plano de aplicação do montante.

A CPI do Sistema Prisional trabalha para descobrir onde foram parar os R$ 3,5 milhões e, até o momento, tem o depoimento de servidores da Sejuc que confirmam a forma errada como o dinheiro foi usado. Uziel de Castro foi exonerado na semana passada e, desde então, sumiu. Ele deveria prestar esclarecimentos à comissão da Assembleia Legislativa na quarta-feira (10), mas não foi encontrado para receber a intimação. Seu celular também estava desligado. A informação é de que está de férias, não se sabe onde.

A presidente da CPI afirmou que ele não tem conhecimento de que seu nome está na lista de pessoas para serem ouvidas pelos deputados, mas ressaltou a necessidade de seu depoimento para ter a oportunidade de se defender. Até mesmo para que os parlamentares não fiquem apenas nas versões apresentadas até agora que, ao que tudo indica, querem fazer a responsabilidade recair sobre o falecido chefe da Deplaf.

“Uziel foi exonerado na semana passada e, desde então, sumiu. Agora, querem atribuir a um servidor já morto a decisão de usar indevidamente os R$ 3,5 milhões do Fundo Penitenciário. É preciso que ele [Uziel] apareça e se isente da culpa, ou então tenha a lisura de defender quem já não pode mais fazê-lo”.

Delegado de carreira, Uziel disse que comprovaria ter feito tudo com lisura enquanto esteve à frente da Sejuc , embora o governo do Estado, de forma enviesada, tenha dito o contrário ao exonerá-lo. Há pessoas próximas ao ex-secretário que atestam sua honestidade. A ver! Mais do que nunca, é preciso que ele dê as caras na CPI e venha a público explicar, tintim por tintim, que fim foi dado aos R$ 3,5 milhões. Que demonstre não ter nada a ver com isso e comprove que as decisões erradas foram tomadas por Alziro Filho. Ou, então, tenha a dignidade de pulverizar essa “nuvem negra” que agora paira sobre quem já não pode mais se defender. Isso também pode ser entendido como lisura!

*O autor é editor-adjunto do RORAIMA em Tempo. e_verissimo@hotmail.com