Europa unida, velho sonho de monarquistas e repúblicanos

ANDRÉ HEOLZLE*

No dia 25 de Março celebrou-se o 60º aniversário da assinatura do Tratado de Roma, considerado a base para a unidade da Europa. Foi há seis décadas que, na capital italiana, se tomou a decisão de construir a unidade do continente como forma de prevenir mais catástrofes. Estas eram, essencialmente, de dois tipos – uma de índole jihadista, que vinha desde o sec. XI; outra, a guerra econômica, presente desde o sec. XIX.

A ideia de uma unidade europeia já havia sido apresentada e discutida muito antes. No sec. XI, o Papa Urbano II apresentou, também em Roma, a ideia de unidade de todos os cristãos, incluindo os bizantinos. Depois disto, no sec. XIII, Alberto Magno, Bispo de Regensburg, sugeriu uma federação dos governantes cristãos, para evitar confrontos entre os estados, unindo esforços para combater o jihadismo islâmico. A mesma ideia foi retomada pelo Papa Leão X, quando, em 1517, reuniu os representantes dos estados cristãos e sugeriu a criação de uma federação europeia como forma de proteger a Europa da ameaça jihadista.

“A primeira ideia de unidade europeia foi apresentada no sec. XI pelo papa Urbano II em Roma, com o objetivo de unir todos os cristãos, incluindo os bizantinos. Depois disto, no sec. XIII, Alberto Magno, Bispo de Regensburg, sugeriu uma federação dos governantes cristãos para evitar confrontos entre os estados e unir esforços para combater o jihadismo islâmico”.

Estas ideias foram posteriormente disseminadas  e em 1814, Karl Friedrich Krauser, professor da Universidade de Jena, na Alemanha, lançou o projeto de criação dos Estados Unidos da Europa; em 1867, o italiano Giuseppe Garibaldi, que foi casado com a brasileira Anita Garibaldi, organizou um congresso em Genebra (Suíça) sobre a ideia de unidade europeia – o Congresso da Paz; em 1892, o Congresso Universal de Berna, também na Suíça, teve como tema a federação europeia, a qual permitiria a resolução de todos os conflitos existentes através da lei e não pelo uso da força.

No entanto, foi no Congresso para a Federação Europeia, que se realizou em Roma, em Julho de 1909, e do qual participaram Portugal e a Sérvia, que a ideia contemporânea de unidade europeia amadureceu completamente. A forte razão para a organização deste congresso foi a anexação da Bósnia e Herzegovina pelo Império Austro-Húngaro, em 1908, a qual teve uma feroz oposição do lado sérvio, resultando num tumulto generalizado entre os países europeus. Os participantes deste congresso eram, além dos representantes da nobreza do continente, distintas personalidades de diversos países europeus, como Portugal, Sérvia, Áustria-Hungria, Reino Unido, Rússia, França, Espanha, Itália, Alemanha, Suíça, Grécia, Bélgica, Holanda, Suécia, Noruega, Dinamarca, Roménia, Bulgária e Montenegro (naquela altura um dos estados da Sérvia).

Assim, a velha ideia de unidade surgiu para defender a Europa de ameaças não-europeias. Sua moderna concepção é no sentido de prevenir guerras e convulsões dentro do Velho Mundo, as quais estão enfraquecendo sua defesa e as potencialidades econômicas. Portanto, a unidade não foi o sonho de apenas alguns, mas da “crème de la crème” da Europa que naquela altura reunia 20 monarquias e apenas duas repúblicas.

 

*O autor mora, estuda e trabalha em Preston (Lancashire, UK). a.holzle@live.com