Males que a direita xenófoba pode causar à Europa

ANDRÉ HEOLZLE*

 

Está em curso, e parece que dificilmente haverá volta, a saída do Reino Unido do bloco econômico do Velo Continente. Sem os britânicos, a União Europeia será sem duvida menor, certamente menos confiante, e ninguém vai ganhar, exceto aqueles que esperam que o projeto europeu inteiro um dia desmorone. Essa é a análise que fazem os especialistas com quem tenho conversado aqui em Preston. Para eles, o Reino Unido, composto pela Grã-Bretanha – a grande ilha onde estão Inglaterra, Escócia e País de Gales – mais a Irlanda do Norte, continuará sendo parceiro do bloco.

Todos, de forma unânime, são de opinião de que esse, o desmantelamento do bloco, é um perigo muito maior, que se esconde na França, onde a Frente Nacional e sua líder Marine Le Pen fazem do radicalismo de direita arma para avançar sobre o poder. Os sérios obstáculos para uma maior integração ou uma forma de união política nunca foram, na verdade, puramente britânicos – eles surgiram há mais de 10 anos, quando os eleitores franceses e holandeses rejeitaram os planos para introduzir em seus países a constituição da União Europeia.

“A UE não está no seu leito de morte. Entretanto, ao completar 60 anos, o bloco passa por uma crise de meia-idade. É esse período na vida em que a maioria das pessoas percebe que os sonhos e as ambições que cultivou não são susceptíveis de se materializar. Todavia, isso não significa que suas realizações não sejam dignas e que não devam ser cultivadas”.

A UE não está no seu leito de morte – isso se a França não aceitar Le Pen. Entretanto, ao completar 60 anos, o bloco passa por uma crise de meia-idade. É esse período na vida em que a maioria das pessoas percebe que os sonhos e as ambições que cultivou não são susceptíveis de se materializar. Mas isso não significa que suas realizações não sejam dignas e que não devam ser cultivadas.

A UE representa atualmente 7% da população mundial, cerca de 23% de todo os PIB das nações do planeta e 50% da despesa pública global. Sem a Grã-Bretanha, será menos do que isso, é claro. Mas essa perda não apagará o fato de que quase todas as nações europeias estão perto do topo da lista global, onde as pessoas desfrutam da maior expectativa de vida ao nascer, das melhores condições de acesso à educação e do maior PIB per capita.

Temos também que as normas sociais do eurogrupo significam que, apesar de todo o discurso de desigualdade, esta parte do mundo está desprovida do tipo de capitalismo selvagem que chegou a caracterizar muitas economias “emergentes”, como a chinesa. Isso porque a UE se esforça para atuar no cenário mundial como um bloco, por mais imperfeito que seja, mas que possa ter uma palavra a dizer sobre como a globalização será moldada. Quem quer que a China seja o líder mundial a estabelecer as regras?

A declaração de Roma, que serviu para marcar o 60º aniversário da UE, diz o seguinte: “Mesmo quando tomados individualmente, ainda assim estaremos alinhados pela dinâmica global. Estar juntos é nossa melhor chance de influenciá-los “. Nenhuma palavra foi dita sobre Brexit. Mas a conclusão a extrair dessas palavras – “tomadas individualmente” – é bastante clara. Adeus, Grã-Bretanha. E fique tão perto como todos seguem desejando.

*O autor mora, estuda e trabalha em Preston (Lancashire, UK). a.holzle@live.com