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Argentinos correm para postos de gasolina, bancos e mercados antes de greve

Estabelecimentos ficarão fechados na paralisação convocada pelos sindicatos contra Macri


Milhares de membros de centrais sindicais participam de protesto na praça de Maio, em Buenos Aires, prévio à greve geral desta terça-feira - Damian Dopacio/Noticias Argentinas/AFP

Fim de uma das primeiras tardes da primavera portenha, e o trânsito está infernal na movimentada avenida Córdoba.

Nesta segunda-feira (24), após o anúncio dos principais sindicatos de que na terça-feira (25) haverá uma greve geral contra as políticas econômicas do governo Macri -que inclui, entre outras coisas bancos, postos de gasolina, supermercados, hospitais, repartições públicas, transportes, voos nacionais e internacionais- há uma verdadeira corrida por combustível.

"Tenho que encher o tanque e mais este aqui", mostra Eddy Díaz, 26, mostrando um galão vazio. Ele trabalha de motoboy. "Sei que amanhã não vai ter trabalho, mas quero me movimentar na cidade, e preciso estar com tanque cheio na quarta, porque começo a fazer entregas às 6 da manhã", conta à Folha.

Um pouco mais atrás, atrapalhado com o barulho das crianças dentro do carro, que comemoram o fato de que amanhã não haverá aula, Fulvio Di Carmo, 42, tem ar de angustiado. "É um acúmulo de coisas, não posso ficar sem gasolina para ir trabalhar, porque meu escritório vai funcionar normalmente", ele é advogado. 

"Depois, tem de arrumar coisas para as crianças fazerem, minha mulher está no grupo de WhatsApp com outras mães para inventarem uma atividade. E, ainda, após conseguir o combustível, se der tempo, vou passar no supermercado, que já avisaram que fecha 10 minutos antes da meia-noite."

O anúncio da greve não pegou ninguém de surpresa, já se sabia, desde a semana passada, que algo assim aconteceria. O apoio contundente de várias categorias, demonstrado nesta segunda-feira (24), porém, não estava previsto.

No meio da corrida antes do "fim do mundo", que se assemelhava a um filme de ficção científica, estão os que apoiam e os que não concordam com os métodos dos sindicados. 

"Eu entendo que com essa inflação não se pode viver. Não posso entrar numa farmácia e comprar um remédio por 800 pesos num dia, e na semana seguinte o mesmo medicamento está 1.100 pesos. Mas será que este é o melhor jeito?", diz Maria Eligna Razzo, 46. 

E acrescenta. "Macri está em Nova York (em reunião da ONU), comendo bem, conversando com empresários, dando entrevistas para jornais econômicos dizendo que na Argentina vai bem. Ele não está vendo nada disso. E olha para mim?", diz, com bom humor, mostrando suas mãos tomadas por sacolas de compras, com bananas, remédios, água e papel higiênico à vista.

Nos bancos, o fechamento do dia foi também caótico. O segurança do Banco Galícia da agência de Chacarita, Jerónimo, disse que teve que chamar reforço policial para fechar as portas de vidro depois do horário de atendimento.

"Todo mundo sabe que o dinheiro dos caixas eletrônicos acaba em poucas horas, e amanhã não haverá reposição, então o jeito foi vir buscar dinheiro em espécie nos caixas físicos mesmo, mas temos hora para fechar, os clientes têm de respeitar isso."

De fato, a Folha, também atrasada em se prover de moedas, circulou por alguns caixas eletrônicos e só conseguiu sacar uma nota de 500 pesos (pouco mais de US$ 10). Parece que amanhã vai ser um dia de passar à base do que houver na geladeira.

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