‘Na iminência de vivenciar uma tragédia’

ÉRICO VERÍSSIMO*

Sem coragem para ir a público dar explicações sobre as denúncias que envolvem seu governo e um suposto favorecimento à empresa Qualigourmet que, ao que tudo indica, pertence a seu filho Guilherme Campos, a governadora demonstra também não ter peito para tratar das questões lícitas de sua administração, a exemplo das reivindicações dos agentes penitenciários feitas há muito tempo e nunca atendidas. Em meio a escândalos que não cessam, Suely Campos é cobrada pelo sindicato da categoria a marcar uma audiência para discutir sobre os direitos de quem põe a vida em risco ao lidar com bandidos de alta periculosidade sem as condições necessárias para isso.

“Cabe à Sejuc explicar tais denúncias, sem se esquecer de comprovar também que houve licitação para a aquisição de 400 colchões destinados a presos da Penitenciária Agrícola, desmentindo, assim, a acusação de que pouco mais de 300 teriam sido doados por membros de uma facção criminosa”

Em reportagem da edição desta quinta-feira (10) deste jornal, o presidente do Sindicato dos Agentes Penitenciários (Sindape), Lindomar Sobrinho, faz um alerta: “Só quem pode resolver os atuais problemas é a governadora. Se ela não tomar as rédeas da situação, a gente está na iminência de vivenciar uma tragédia”. Ele reforça ainda que, nem mesmo com a secretaria diretamente responsável pela administração penitenciária, há diálogo, ao contrário do que o secretário vem tentando informar à sociedade. E ele aponta tudo isso em meio à operação “Cumpra-se a Lei”, em que os agentes pedem providências urgentes para que tenham as mínimas condições de exercer a profissão.

Para tentar apaziguar o meio de campo e evitar uma catastrófica paralisação da categoria, o Ministério Público resolveu intermediar e propor aos órgãos “competentes” uma série de medidas para “tentar minimizar as mazelas que assolam o sistema penitenciário”. Um acordo extrajudicial com o Sindape tenta acompanhar os compromissos assumidos pelo governo com a Promotoria de Justiça e o Ministério Público Federal que resultou no desbloqueio de R$ 42 milhões do Fundo Penitenciário Estadual. O recurso havia sido bloqueado por suspeita de irregularidades.

No mesmo dia em que o Sindape anuncia o fracasso nas tentativas de diálogo com o governo, um agente penitenciário denuncia um suposto abuso de autoridade do adjunto da Sejuc. Segundo ele, os profissionais estão sendo coagidos a trabalhar em viaturas em péssimas condições de uso, conforme também reportado neste jornal. Com a recusa de agentes concursados em trabalhar de acordo com as determinações do secretário, os servidores comissionados estariam sendo obrigados a fazer o serviço sob a ameaça de exoneração. Ele ressalta ainda que veículos novos doados pelo Ministério da Justiça ao Estado estão retidos em São Paulo porque “só falta serem buscados”.

Cabe à Sejuc explicar tais denúncias, sem se esquecer de comprovar também que houve licitação para a aquisição de 400 colchões destinados a presos da Penitenciária Agrícola, desmentindo, assim, a acusação de que pouco mais de 300 teriam sido doados por membros de uma facção criminosa. Em meio a tudo que vemos noticiado sobre esse governo, uma simples nota negando tudo não basta. Tem de se provar o que está sendo dito.

E por falar em nota, é preciso que as autoridades abram mão do control c, control v e tenham um pouco mais de respeito à inteligência alheia, principalmente a de quem reclama. A reposta dada às reivindicações do Sindape é a mesma enviada há exatamente uma semana quando os agentes deflagraram a operação “Cumpra-se a Lei”. Não se fala em novidades, não se vê progresso, mas se percebe, claramente, o desprezo ao lidar com questões urgentes e que dizem respeito a um setor sensível da sociedade.

 

*O autor é editor-adjunto do RORAIMA em Tempo. e_verissimo@hotmail.com