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Alunos são obrigados a limpar as dependências de colégio militar sob ameaça de suspensão

Turma de alunos estaria escalada para limpar os banheiros da unidade, segundo a mãe


Punição para quem se nega a limpar a escola vai de perda de pontos à suspensão; estudantes limpam as salas de aula, os corredores e até lavam os banheiros - Divulgação/Seed

"O local que deveria servir para ensinar, está sendo transformado em um quartel". É o que denunciam os pais dos alunos da escola estadual Professora Elza Breves de Carvalho. Há mais de três semanas, os estudantes são obrigados a limpar corredores, o quintal e até lavar os banheiros da unidade de ensino. Quem se nega a fazer os serviços é punido com perda de pontos e até suspensão.

A mãe de uma aluna que prefere não se identificar conta que a filha chegou em casa relatando que os gestores da escola iriam chamar a denunciante para uma reunião porque ela se negou a limpar a escola. A estudante estaria substituindo os servidores da limpeza que não vão trabalhar por falta de pagamento. A notícia deixou a mulher indignada.

"A minha filha está reclamando há umas três semanas. Ela me disse que eu iria receber uma notificação para comparecer à escola porque se negou a fazer esse tipo de serviço", reclama.

A estudante também lamenta a situação. "Não tem condição de eu ficar indo limpar a escola, eu estou indo para lá para estudar. A partir das 5h da tarde, eles [os gestores da escola] convocam os alunos, tiram da sala de aula para ir limpar corredor, lavar banheiro, varrer o pátio, e eu disse que não ia porque se fosse para trabalhar eu iria trabalhar em casa", afirma. "Eu não aceito uma coisa dessas. Minha filha está indo para lá estudar. Ali não é um quartel, é um colégio militar", acrescentou a mãe da estudante.

De acordo com a denunciante, esta semana a turma da filha dela está escalada para lavar os banheiros. Ela conta que a direção da escola está transformando a unidade de ensino em um quartel.

"Minha filha tem problemas com água sanitária e ela conta que tem meninas que passaram mal lavando banheiro com o produto. Ela chega em casa com a meia rasgada e toda molhada. Isso é um absurdo. Nós não podemos nos calar numa situação dessa. É direito dos nossos filhos estudar", relatou indignada.

'MUDANDO PARA MELHOR'

Uma das ações mais celebradas pela governadora Suely Campos (PP) é a implantação dos colégios militares. Durante convenção que lançou a sua candidatura para a reeleição ao governo do Estado, ela afirmou por várias vezes que as escolas militares estavam mudando para melhor a vida dos estudantes de Roraima. Mas, segundo os pais dos alunos da Escola Elza Breves de Carvalho, a realidade para quem estuda é outra totalmente diferente.

"Aí a governadora vai à escola e diz que ela está bem representada, pra ganhar voto. Que nada! A realidade dos estudantes é bem diferente, os funcionários estão saindo por falta de pagamento e os alunos estão sendo obrigados a fazer a limpeza de sala e corredor para poder ter uma escola limpa para estudar. E quem se nega a fazer essas atividades é punido, perde pontos, toma suspensão, é um absurdo isso. Eu já pensei até em tirar a minha filha de lá, mas isso é demais. Quantos e quantos alunos já saíram?", reforçou.

A escola Professora Elza Breves de Carvalho não é a única militarizada que enfrenta problemas. Alunos da escola militar Maria Maricelma de Oliveira Cruz, que fica no município de Mucajaí, já fizeram denúncias ao Ministério público de Roraima (MPRR) apontando falta de iluminação, o que estaria atrapalhando o aprendizado dos estudantes. Na tentativa de resolver o problema, foi ajuizada uma ação contra o governo do Estado.

As irregularidades foram confirmadas em uma vistoria realizada pelo MPRR nas dependências do colégio e ficou constatado que quase 65% das luminárias precisam ser trocadas.

Os pais dos alunos fazem um apelo para o governo do Estado e para os pais de outros alunos que estão passando pela mesma situação.

"Eu só peço que os pais não se calem nem tirem os filhos da escola por um capricho deles. E espero que a governadora respeite os nossos filhos como cidadãos."

'RESPONSABILIDADE'

Por meio de nota, a Secretaria Estadual de Educação (Seed) informou que a manutenção da limpeza de salas de aula da Escola Militar Elza Breves é responsabilidade de toda a comunidade escolar, sob a orientação de não jogar lixo em local não adequado, assim como é responsabilidade dos alunos zelar pelas paredes e carteiras escolares.

A secretaria informou ainda que os alunos não são obrigados a realizar qualquer tipo de atividade de limpeza e conservação. E quando há envolvimento, tem consentimento dos pais ou responsáveis, como forma de sensibilizar o aluno sobre a obrigação de zelar pelo ambiente escolar.

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