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Delegado responsável por operação lembra fatos do maior escândalo de corrupção de RR

Júlio Baida relembra fatos marcantes da operação que desarticulou esquema conhecido como Escândalo dos Gafanhotos

Créditos: Edumar Junior
- Arquivo Pessoal

"Foi muito emocionante. A população cercou o presídio e ficava cantando o Hino Nacional conforme a gente levava os presos. E os detentos que lá estavam por outros delitos, ao verem os presos dos gafanhotos entrando, gritavam: justiça, justiça".

O relato do delegado Júlio César Baida, responsável pela "Operação Praga do Egito", mostra como a desarticulação do maior esquema de corrupção da história do Estado comoveu a sociedade roraimense. Mais de uma década depois, ele contou detalhes ao Roraima em Tempo sobre a fraude que "se aperfeiçoava não só para que houvesse um enriquecimento ilícito, mas formava o grupo de eleitores para votar nesse político para que ele fosse eleito".

Baida explicou que as investigações começaram após uma reportagem sobre o esquema ser publicada no Jornal Folha de São Paulo, em 2002. No ano seguinte, foi feita uma busca na empresa Norte Serviços de Arrecadação e Pagamentos (NSAP) LTDA., usada pelo então governador de Roraima, Neudo Campos, para pagar os servidores públicos que não possuíam contas em bancos.

"Como o Estado não podia transferir o pagamento desse salário para uma conta, o dinheiro era encaminhado para essa empresa e lá eles pagavam em espécie a esses supostos funcionários, e o recurso era recebido pelas pessoas que detinham a procuração", relatou.

BUSCAS NA EMPRESA

Durante a busca na Norte Serviços, os policiais encontraram diversas procurações em nome de terceiros que autorizavam o saque dos salários na empresa. Para Baida, essa foi a primeira prova concreta da fraude.

"Ali estavam procurações concedidas por mais de 5 mil, 6 mil cidadãos roraimenses para um pequeno grupo de pessoas que, por sua vez, eram ligadas diretamente a investigados, a membros da Assembleia Legislativa e mesmo do Tribunal de Contas", pontuou.

Com as procurações em mãos, sete equipes da Polícia Federal foram montadas. Todas contavam com um delegado, um escrivão e dois agentes. Eles visitaram os endereços citados nos documentos encontrados na empresa. De acordo com o delegado, 600 funcionários de um universo de 6 mil foram ouvidos.

"Essas equipes saíam todas as manhãs com a missão de encontrar parte dessas pessoas. Era comum que assim que eles encontravam o primeiro endereço, o delegado e o escrivão faziam a oitiva e os agentes partiam para o próximo endereço para não perder tempo", lembrou.

ENGANADAS

Entrevistando as pessoas que eram registradas como "funcionárias públicas", os policiais federais descobriram a fraude. Segundo o delegado, a grande maioria das pessoas usadas como "gafanhotos" foi enganada.

"Essas pessoas, ao serem ouvidas e serem exibidos a elas os comprovantes de pagamento, grande parte identificava que jamais havia recebido aquele valor. Muitas recordavam ter assinado a procuração, mas acreditavam estar assinando ficha para proposta de emprego. Pessoas que claramente não eram destinatárias desse dinheiro, por serem muito humildes, por morarem em bairros distantes, em casas bastante precárias", reforçou.

Para o delegado, algumas pessoas acreditavam estar, de fato, preenchendo um formulário para conseguir emprego.

"Elas identificavam a assinatura delas na procuração, mas não sabiam que estavam concedendo um instrumento que autorizava as pessoas a fazerem os saques em nome delas. A imensa maioria não fazia ideia que era registrada como funcionária pública", afirmou o delegado.

As procurações ficavam em posse de políticos ou agentes públicos que se aproveitavam do documento para receber o dinheiro em nome do suposto servidor público. De acordo com as investigações, alguns políticos conseguiam sacar cerca de R$ 200 mil por mês.

A investigação conseguiu identificar também que o "gafanhoto", que nem sequer sabia que era funcionário público, recebia entre R$ 100 e R$ 150 por mês do procurador que agia em nome dele. Uma minoria não recebia quantia alguma.

"Os que detinham a procuração iam mensalmente receber como se estivesse sacando em benefício dessas pessoas. Muitas relataram que recebiam uma pequena ajuda de custo do político que estava vinculado, o que girava em torno de R$ 100 ou R$150", lembrou.

Baida recordou ainda que esse esquema de corrupção ficou ativo no Estado por pelo menos quatro anos e que o desvio de dinheiro ultrapassa a marca de R$ 1 bilhão. O delegado disse que o esquema não era muito sofisticado.

"Quem participou do esquema, não se preocupou em disfarçar a fraude. Se você considerar os quatro anos, de 1998 até o final de 2002 ,e os valores mensais que eram recebidos, era um valor muito grande, passa de R$ 1 bilhão. Quem se beneficiou, vivia com muito conforto, em mansões", comentou.

PERMANÊNCIA NO PODER

Além de colaborar com o enriquecimento ilícito de alguns agentes públicos, o esquema dos "gafanhotos" proporcionava a criação de uma espécie de "curral eleitoral" com a própria população que era enganada, como explicou o delegado responsável pela operação.

"A fraude se aperfeiçoava não só para que houvesse um enriquecimento ilícito, mas essa devolução desse pequeno valor formava o grupo de eleitores para votar nesse político para que ele fosse eleito. O interessante dessa ação é que ao mesmo tempo em que havia o enriquecimento, se formava um grupo de eleitores que, por causa dessa ajuda mensal, [o político] acaba tendo eleitores cativos, tendo a possibilidade de se perpetuar no poder", disse.

Júlio César Baida hoje é o coordenador-geral de repressão a drogas e facções criminosas da Polícia Federal, da diretoria de combate ao crime organizado, em Brasília. O delegado relatou que a operação "Praga do Egito" foi a primeira que ele comandou. Quinze anos depois e com outras operações na carreira, ele afirmou que desarticular o escândalo dos gafanhotos foi a que mais marcou a vida dele.

A comoção com o sucesso da operação foi generalizada. A população e os próprios policiais comemoravam a prisão dos envolvidos no esquema. Baida disse não esquecer a cena que presenciou na penitenciária.

"A população cercou o presídio e ficava cantando o Hino Nacional conforme a gente levava os presos. E os detentos que lá estavam por outros delitos, ao verem os presos dos gafanhotos entrando, gritavam 'justiça, justiça'. Agentes e delegados quando me encontravam choravam de emoção. As pessoas paravam os policiais para pedir autógrafos. Então, o sentimento é de dever cumprido", afirmou.

RECENTES PRISÕES E NOVOS DEPOIMENTOS

"O processo ainda corre. Muita gente ainda responde. Alguns julgamentos em segunda instância devem ocorrer nos próximos dias. Teve gente que aceitou participar como procuradora, foi presa e perdeu tudo. Uma delas, eu me lembro, teve que se esconder na casa de um amigo quando a PF estava atrás dela", disse o denunciante do esquema ao Roraima em Tempo.

Em julho de 2018, três mulheres foram presas pelos agentes federais acusadas de peculato. Elas têm entre 44 e 53 anos e foram as mais recentes presas provenientes do escândalo, tendo sido levadas para Cadeia Feminina para cumprir pena.

O ex-governador de Roraima Neudo Ribeiro Campos, que está cumprindo prisão domiciliar, acusado de ser o chefe do esquema dos "gafanhotos", foi condenado novamente em julho de 2018 por crime de improbidade administrativa, por atos lesivos ao Estado quando era governador.

Nesta última ação, Neudo foi condenado à perda da função pública, suspensão dos direitos políticos por cinco anos, pagamento de multa e proibido de contratar com o Poder Público.

Neudo também está impedido de receber benefícios ou incentivos fiscais ou creditícios, direta ou indiretamente, ainda que por intermédio de pessoa jurídica da qual seja sócio majoritário, pelo prazo de três anos.

 

 

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