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Escândalo dos Gafanhotos completa 15 anos; como era o esquema e o que se sabe até hoje

Segundo relatório da Polícia Federal, 53 pessoas foram presas durante a deflagração da operação


O cérebro de todo o escândalo que comeu a folha de pagamento do Estado era Neudo Campos, conforme investigações da polícia. Ele negociava os cargos comissionados e inchava os gastos com pessoal - Reprodução

Era 26 de novembro de 2003, quando a Polícia Federal desencadeou a operação "Praga do Egito". Desvios milionários comprovados por meio de inquéritos levaram à prisão mais de 50 pessoas, segundo relatório da Superintendência. Quinze anos depois do desbaratamento do maior escândalo de corrupção da história de Roraima, algumas pessoas citadas nas investigações continuam ocupando cargos políticos no Estado.

Os "gafanhotos", como ficaram conhecidos os responsáveis pelos desvios, comeram dos cofres públicos, à época, aproximadamente R$ 300 milhões. No entanto, esse valor passa de R$ 1 bilhão, segundo a Polícia Federal.

O INÍCIO

O Roraima em Tempo conversou com exclusividade com um dos denunciantes do esquema que detalhou como funcionava o pagamento às pessoas fantasmas na folha do Estado. Aproximadamente cinco mil funcionários se envolveram nos desvios. Tudo bem planejado, com acordos entre o então governador, Neudo Campos, e deputados da Assembleia Legislativa.

O esquema aconteceu, segundo a Polícia Federal, entre os anos de 1998 e 2002, e desviou R$ aproximadamente R$ 72 milhões por ano. As primeiras denúncias começaram a ser feitas após um desentendimento entre o então presidente da Assembleia Legislativa (ALERR), deputado Edio Lopes, atual parlamentar federal por Roraima, e Neudo Campos.

"Foi na eleição para prefeito de 2000. Neudo queria lançar um candidato e Edio, outro. Entraram num acordo de que poderia ser lançado um candidato, desde que não tivesse o apoio da deputada Aurelina Medeiros. Nesse período, Neudo viajou para o Canadá e Aurelina lançou um. Edio lançou o irmão e começou o desentendimento", lembrou.

Depois desse episódio, um grupo de deputados articulava o impeachment de Neudo Campos. Sentindo-se, ameaçado, o ex-governador fez um "acordão" com os parlamentares e aumentou os benefícios a eles. Consequentemente, conseguiu destituir Edio da presidência, já que tinha 18 parlamentares favoráveis.

ESQUEMA

A fonte conta que chegou a receber proposta para participar do esquema. Um assessor parlamentar do então deputado Bernardino Siqueira lhe fez o convite. Receberia R$ 20 mil por mês pelo Departamento de Estrada e Rodagem (DER). No entanto, ao consultar um dos deputados, foi orientado a não aceitar, pois "ia dar cadeia para muita gente".

A negociação entre o assessor e a parte interessada em receber era da seguinte maneira: a pessoa recebia a proposta e, caso aceitasse, o requisito obrigatório era assinar uma procuração que concedia poderes ao assessor. Quando o pagamento era feito, o procurado ia ao banco somente com as procurações de todos os indicados do parlamentar e retirava uma mala de dinheiro.

"Tinha assessor que levava 300 procurações. Depois que estava com o dinheiro, comunicava aos funcionários, que formavam fila na porta da Assembleia Legislativa para receber. Muitos nem iam. Recebiam depois", detalhou o denunciante, ao acrescentar que o governador negociava votação de projetos em troca das vagas nas instituições estaduais com salários entre R$ 300 e R$ 6 mil.

"Quem assinava, recebia R$ 500. Cada deputado tinha entre 100 e 300 pessoas na folha. Ao final, ficavam com R$ 150, R$ 200 ou R$ 300 mil por mês", complementou.

OS MAIS CAROS

Cada parlamentar tinha uma determinada "fatia" do Executivo que dependia da influência dele. De acordo com a fonte, Mecias de Jesus (PRB) "era o mais caro". E conforme os trabalhos da PF, ele mantinha pelo menos 34 "gafanhotos" que repassavam parte ou a totalidade de salários a dois procuradores ligados a ele. Apenas em 2002, o esquema envolvendo o parlamentar movimentou R$ 500 mil, conforme levantamentos da polícia e da Procuradoria-Geral da República.

Mecias, por exemplo, foi o deputado mais votado da Assembleia em 2002, com mais de 4 mil votos. Ficou em primeiro lugar no ranking até a eleição de 2010, quando chegou aos 7 mil. Em 2014, terminou em segundo lugar entre os mais votados. Este ano, conseguiu se eleger para o Senado.

No ano de 2006, o patrimônio de Mecias de Jesus estava avaliado em R$ 583 mil, sendo o maior bem 800 cabeças de gado. Quatro anos depois, tinha diminuído para R$ 326 mil. No entanto, em 2010, conforme o Tribunal Superior Eleitoral, estava avaliado em mais de R$ 1,3 milhão. Crescimento de 318% em apenas dois anos, desde a última declaração de bens à Justiça Eleitoral.

Nas Eleições de 2018, o patrimônio diminuiu para a casa dos R$ 600 mil. Bem abaixo do valor de R$ 1,2 milhão declarados em 2014.

Os menos favorecidos eram, por exemplo, Bernardino Siqueira, com parcelas pequenas nas folhas de pagamento. O então deputado foi preso pelos agentes federais durante a "Praga do Egito".

Cerca de 30 autoridades políticas enriqueceram com o esquema, aponta relatório da PF. O desvio de verbas federais para outras despesas foi denunciado ao Ministério Público (MPF) através de material publicado num jornal parlamentar da Casa. A partir daí, as autoridades passaram a investigar o esquema ainda maior.

'MENTOR'

O cérebro de todo o escândalo que comeu a folha de pagamento do Estado era Neudo Campos, conforme investigações da polícia. Ele negociava os cargos comissionados e inchava os gastos com pessoal. Uma ação contra o ex-governador foi aberta em 2004, com base em denúncia do Ministério Público Federal, que atribuiu a Campos o papel de mentor do "Esquema dos Gafanhotos".

No ano de 2011, Campos foi condenado a 16 anos de prisão por peculato e formação de quadrilha. A decisão foi do juiz Helder Girão Barreto, que afirmou: "no exercício do cargo de governador, e abusando dos poderes que detinha, [Neudo Campos] instituiu quadrilha com o fim de cometer crimes contra a administração pública".

Desde a condenação, Neudo recorreu a todas as instâncias para conseguir provar que não foi responsável pelo esquema. No entanto, após uma batalha judicial, o atual marido da governadora se entregou à PF em maio de 2016. Ele tentou fugir do Estado pela estrada que leva à Venezuela, mas foi interceptado pelos agentes federais que descobriram o plano de fuga.

Seis meses depois de ser preso, a defesa de Neudo, que alegava uma série de problemas de saúde, entre eles, depressão, bipolaridade, surtos psicóticos e suspeita de câncer de pele, conseguiu na Justiça decisão favorável para o "mentor" cumprir pena em prisão domiciliar até que melhorasse. Ele segue até hoje nesse tipo de regime.

Atualmente, Neudo tem 72 anos de idade e chegou a ser nomeado para o cargo de consultor especial da Governadoria no mandato de sua mulher, Suely Campos (PP), mas deixou a função em março de 2016, dois meses antes de ser preso.

OPERAÇÕES

A Operação Praga do Egito foi considerada uma das mais exitosas da Polícia Federal. Ela entrou para o relatório de atuação da Superintendência do ano de 2003. Segundo o documento de 200 páginas, o escândalo se tratava de desvio de dinheiro público por parlamentares, ex-parlamentares, altos funcionários do Executivo Estadual e Tribunal de Contas do Estado.

"O esquema consistia em incluir o nome de laranjas [gafanhotos] na folha de pagamento do Estado. Os gafanhotos passavam procurações para o recebimento dos proventos. O dinheiro era recebido por procuradores e repassado aos mentores do esquema. A fraude contava também com a participação da empresa NSAP LTDA. que fazia os pagamentos e arrecadava tributos", diz o relatório.

Ainda conforme a apresentação da PF, os mandados de busca e apreensão e prisão foram cumpridos com participação de agentes de pelo menos nove estados brasileiros, sendo eles: Rio de Janeiro, Minas Gerais, Bahia, Sergipe, Pernambuco, Ceará, Amazonas, Santa Catarina e Roraima.

Numa operação de desdobramento, chamada "Faraó", o empresário Oscar Maggi foi preso. Ele era um dos donos da empresa Norte Serviços LTDA., que realizava os pagamentos do funcionalismo público de Roraima e desviava parte do dinheiro. A quadrilha desviou R$ 31,6 milhões.

Foram presos no mesmo ano (2004) os ex-secretários de Fazenda Roberto Leonel Vieira e Jorci Mendes de Almeida. Os dois trabalharam na gestão Neudo Campos. Jorci continuou como secretário no governo de Flamarion Portela, mas foi afastado pelo ex-governador depois de deflagrada a Praga do Egito.

Foram presos ainda o ex-secretário do Tesouro Jander César Guerreiro e os sócios de Oscar Maggi, os empresários Edson Hispagnol, Humberto Pereira da Silva Filho e Wanderlan Oliveira do Nascimento. O jornal não conseguiu contato com os citados na reportagem e deixa aberto espaço às defesas.

A Secretaria de Fazenda autorizava a NSAP a movimentar dinheiro público sem prestar contas e sem fiscalização do Estado, recorrendo a servidores fantasmas para desviar o dinheiro.

RESPOSTAS

O Roraima em Tempo entrou em contato com a assessoria de comunicação do deputado e senador eleito Mecias de Jesus sobre ser citado como um dos parlamentares mais caros à época durante o esquema dos gafanhotos. No entanto, nenhuma resposta fora dada até às 15h desse domingo (25).

A assessoria de comunicação da deputada estadual Aurelina Medeiros, que está no quinto mandato, informou que ela estava numa cidade do interior onde não há sinal de telefonia móvel, não sendo possível o contato. Foi dado um prazo até às 19h30 (estendendo, assim, o limite para resposta), no entanto, nenhum posicionamento foi enviado à reportagem.

Ao Roraima em Tempo, a assessoria de comunicação do deputado Edio Lopes informou que ele havia estado todo o sábado numa entrega de gados na região Norte do Estado e que na noite do mesmo dia foi direto para o Município de Mucajaí, para uma região onde, possivelmente, não haveria sinal de telefonia móvel. Nenhuma resposta foi enviada sobre as informações nesta matéria até às 15h de ontem.

A reportagem ligou para o advogado de Neudo Campos para saber se ele se pronunciaria sobre a reportagem, mas as chamadas não foram atendidas. O jornal gostaria de saber se, mesmo após a condenação e a pena a ele imputadas, o ex-governador ainda se considera inocente das acusações.

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