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Movimento 'Mexeu com uma, mexeu com todas' repercute em Roraima após caso de abuso no HGR

Jovem de 24 anos estava internada no hospital no dia 14 de novembro quando sofreu abuso de um funcionário

Créditos: BRUNA MENEZES
- Divulgação

O movimento nacional "Mexeu com uma, mexeu com todas", que visa combater e repudiar a violência sexual, ganhou destaque em Roraima após uma paciente do Hospital Geral (HGR) relatar um caso de abuso enquanto estava internada na unidade.

A jovem de 24 anos estava internada no hospital no dia 14 de novembro, devido a uma doença neurológica, quando percebeu que um técnico em enfermagem da unidade apalpou seus seios e passou a mão por dentro da calcinha dela.

Segundo relatou nas redes sociais, ela pulou da cama e pediu ajuda a um policial que estava passando no corredor e de outros funcionários.

"No momento, em que eu precisei, na hora que aconteceu tudo, em que eu gritei e tirei todo meu acesso e pulei da maca, a administração se recusou a falar comigo. Não deram parecer, não documentaram o caso", lamentou a vítima, ao dizer que não recebeu apoio.

Após publicar o relato nas redes sociais e uma foto com a frase "Qual parte do 'mexeu com uma, mexeu com todas' você não entendeu?", o movimento foi repercutido dentro e fora do Estado. A foto recebeu pelo menos 660 curtidas e teve 90 comentários.

"Recebi muito apoio da família e amigos. Foram todos presentes. E além deles, pessoas que surgiram de todos os lugares do Brasil, porque viram a campanha, agradeceram a coragem ou parabenizando pela força", comentou.

Após o caso da jovem ter ficado conhecido, ela contou que recebeu inúmeras mensagens de pessoas que foram vítimas de violência sexual, incluindo um caso que também ocorreu no Hospital Geral de Roraima.

"Até o momento, uma pessoa me relatou uma situação ocorrida em 2017, mas ela está coletando provas para poder denunciar", disse. "A situação é uma dor que não desejo a ninguém! Falei porque tudo o que aconteceu comigo foi igualzinho. Tudo o que sempre me deixou indignada: a falta de apoio, a dúvida das pessoas", finalizou a vítima, que denunciou o caso à polícia.

A direção do HGR informou que está tomando as providências necessárias para que a denúncia da paciente seja esclarecida.

"O hospital encaminhará relatório sobre o fato à Secretaria de Estado da Saúde [Sesau] para abertura de procedimento administrativo para apurar o ocorrido, a fim de que sejam tomadas todas as medidas cabíveis, conforme a legislação vigente", pontuou.

Porém, a direção não se pronunciou sobre o relato da vítima de não ter recebido assistência da unidade no momento em que denunciou o crime.

REPERCUSSÃO

O comentário "você não está sozinha" foi o mais feito pelos internautas na publicação da foto da vítima.

Há quem a parabenizou pela coragem de relatar o caso e o relato de pessoas que passaram por situações semelhantes.

"Parabéns, pela coragem! Boa Vista não é um lugar fácil, mas é preciso enfrentá-lo. Que você sirva de exemplo pra outras mulheres não se calarem e outros homens saberem que não vão ficar impunes", disse uma das internautas.

Um jovem de 23 anos também se solidarizou com a situação. "Eu, como homem, fico muito triste e revoltado com essa situação. Você não está sozinha. Estamos contigo, parabéns pela coragem. Denunciem", comentou.

Outra internauta, de 26 anos, relatou um caso que ocorreu com ela. "Fiz como você, também não me calei, mas o que vale mais: a palavra de um médico, pai de família, que tem uma reputação a manter, ou a palavra de uma garota de 15 anos que não tem reputação de nada ainda?", relembrou.

"Tacham como apenas mais uma louca na sociedade! Ouvi coisas do tipo 'menina, vá para casa', 'esqueça essa história', 'não vai dar em nada, porque ele é médico' ou 'a culpa é sua'. Enfim, no fim das contas, não deu em nada mesmo. Torço para que consiga justiça por você e todas nós", continuou a jovem.

VIOLÊNCIA

Segundo dados da Secretaria Estadual de Segurança Pública (Sesp), entre janeiro e agosto deste ano, foram registrados 74 casos de estupro, 502 de lesão corporal, 385 de ameaça e 12 de maus-tratos. Há ainda 40 casos de calúnia, 174 de injúria, 8 tentativas de homicídio, 2 registros de cárcere privado ou sequestro, 72 de difamação, 2 de feminicídio e 2 de homicídio.

Além dos consumados, foram 18 tentativas de estupro, 12 de assédio sexual, 4 de corrupção de menores de 14 anos e 4 atos obscenos.

Segundo explicou a advogada Nanníbia Cabral, o Código Penal Brasileiro contém alguns crimes relacionados à dignidade sexual, a exemplo do art. 213, que cita que o estupro é o ato de constranger alguém, mediante violência ou grave ameaça, a ter conjunção carnal ou a praticar ou permitir que com ele se pratique outro ato libidinoso.

"As penas previstas de reclusão vão de seis a dez anos, que podem ter agravantes de pena em casos em que se resultem lesão corporal, morte ou se a vítima é menor de 18 anos", acrescentou.

Dos crimes que envolvem a dignidade sexual, também pode ser citado o de violência sexual mediante fraude, que consiste em ter conjunção carnal ou praticar outro ato libidinoso com alguém, mediante fraude ou outro meio que impeça ou dificulte a livre manifestação de vontade da vítima, com pena de reclusão de dois a seis anos, podendo ter ainda aplicação de multa se tiver cometido o crime para obter vantagem econômica.

A advogada pontuou ainda que o art. 217-A do código que prevê que "estupro de vulnerável é ter conjunção carnal ou praticar outro ato libidinoso com menor de 14 anos com pena de reclusão, de 8 a 15 anos".

ORIENTAÇÃO

Nanníbia orientou as vítimas de violência sexual que as denúncias podem ser feitas na Delegacia Especializada de Atendimento à Mulher, que funciona na Casa da Mulher Brasileira, na Rua Uraricoera, no bairro São Vicente, Zona Sul de Boa Vista.

"Se o ato da denúncia ocorrer em horário em que a delegacia não esteja funcionando, pode procurar uma delegacia de plantão ou até mesmo ligar para o atendimento da Polícia Militar no 190", ressaltou.

Ela detalhou que após o atendimento na delegacia, a autoridade policial encaminha a vítima para o exame de corpo de delito no Instituto Médico Legal (IML) e para o hospital, a fim de que sejam aplicados medicamentos necessários e ocorra o atendimento médico.

"Dependendo da gravidade do caso, a vítima é encaminhada antes para o hospital. Isso acontece porque nos casos de estupro, onde há conjunção carnal, o agressor pode transmitir alguma doença sexual ou até mesmo engravidá-la", especificou.

Segundo a advogada, no caso da paciente do HGR e a maneira como a vítima discorreu que aconteceu, indica um estupro de vulnerável pela prática de ato libidinoso quando a vítima não apresentava meios para promover resistência, já que estava debilitada, recebendo medicamentos e sozinha, ou seja, não possuía condições físicas alguma para se proteger.

"Nesse caso, o autor do delito também deverá responder a processo administrativo disciplinar para apurar os fatos, podendo sofrer, além das sanções penais, punições administrativas que podem levar até à demissão", disse Nanníbia.

Conforme aconselhou, as vítimas desses crimes devem se sentir seguras ao denunciar, buscando ajuda o mais rápido possível, para que a polícia possa investigar e elucidar os fatos e, consequentemente, o agressor seja punido nos ditames da lei.

 

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