O preço da omissão

WALBER GONÇALVES DE SOUZA*

Começo este texto citando uma das frases mais marcantes da humanidade pós-moderna e atribuída ao líder norte-americano Martin Luther King: “O que me preocupa não é o grito dos maus, mas o silêncio dos bons”. Justamente por isto, pelo nosso silêncio e pela nossa omissão, estamos pagando um preço muito alto pelo.

Vivemos a era dos escândalos. Todos os dias, todas as horas, pipocam inúmeros casos nas mais diversas partes do país. E o que vemos é o grito de poucos e o silêncio covarde e omisso de muitos. Confesso que não consigo nem listar somente os famosos e intermináveis escândalos de repercussão nacional. Desde que me entendo por gente, e já se faz uns bons anos, não me recordo de nenhuma época em que tema desta natureza não seja assunto de notícias e conversas. Mas o triste é perceber que em meio a tudo isto reina um silêncio obsequioso de dar arrepios aos moradores dos cemitérios.

“Confesso que não consigo nem listar somente os famosos escândalos de repercussão nacional. Desde que me entendo por gente não me recordo de nenhuma época em que tema desta natureza não tenha sido assunto de notícias e conversas. Mas o triste é perceber que em meio a tudo isto reina um silêncio obsequioso de dar arrepios aos moradores dos cemitérios”.

Ainda não nos demos conta de que nossa omissão perpetua a ciranda da roubalheira; cria um quadro de apatia e a aceitação de que tudo que acontece é comum, normal. Com nossa omissão permitimos que sujeitos inescrupulosos continuem agindo com a maior naturalidade; colaboramos para que as gerações dos nossos filhos e netos se tornem pior do que a nossa; aos poucos nos vamos transformando em covardes; acabamos nos transfigurando em lobos na pele de cordeirinhos; colaboramos com tudo aquilo que pensamos estar combatendo; enraizamos ainda mais a injustiça; colaboramos para a existência de moradores de rua, de milhões de analfabetos, de milhões de pessoas nas filas esperando atendimento médico, colaboramos com o crime, com os bandidos, com todos aqueles que surripiam a dignidade das pessoas. 

A nossa sociedade já não aguenta mais tanta e tamanha omissão. O preço que estamos pagando por ela é muito alto. Afinal, a democracia não é sinônimo de omissão. Ela requer participação, envolvimento, coragem e disposição para a realização das atitudes que realmente precisamos ter.

Se as pessoas que podem “gritar” preferem o “silêncio”, então podemos decretar o fim da esperança. Pois se nem elas estão dispostas a lutar por uma sociedade melhor, isto significa, pelo visto, que não há mais jeito. Que tudo está acabado e que o vale-tudo promovido pela pilantragem tem que continuar e salve-se-quem-puder.

Só que neste salve-se-quem-puder não podemos esquecer que um dia, como diria o ditado popular, nosso “calo também pode doer”. E quando este dia chegar, aí já não adianta mais chorar ou tentar recolher o leite derramado. Restará somente o peso da consciência de quem um dia optou pela omissão.

Para finalizar, convido o leitor a acessar as redes sociais e buscar pela letra/vídeo da música de Max Gonzaga, intitulada “Sou Classe Média”. Ela é um retrato fiel do preço que corremos o risco de pagar pela nossa hipócrita omissão.

 

*O autor é professor e membro das Academias de Letras de Caratinga e Teófilo Otoni. prof.walber@hotmail.com