Países Baixos: controlando a água com educação – Parte 1

RONALDO MOTA*

A tentação de chamar de Holanda é grande, mas só serviria para aumentar o equívoco de denominar uma nação inteira por uma de suas partes. E não se trata de um país qualquer, mas de um espaço de terra onde um quarto está abaixo do nível do mar e três quartos seriam inundados com frequência se a natureza fosse deixada sem controle humano. A água, ao invés de inimigo potencial, transformou-se na maior aliada, sendo que 60% do território é ocupado por pôlders, terrenos baixos e alagáveis protegidos por diques e utilizados para moradia e, especialmente, para produção agropecuária.

As cidades são fantásticas, a começar por sua capital Amsterdam, com o maior sistema de canais urbanos do mundo e pontes em abundância quase sem similar. Roterdã é o maior porto da Europa e uma das mecas da moderna arquitetura. No total, são quase 17 milhões de habitantes unificados pela cor laranja, pela obsessão por bicicletas e pela paixão pelo futebol. A população é fortemente multicultural, marcada pela tolerância e por valores como liberdade individual e respeito entre todos, sendo que um quinto dela é de estrangeiros e a maioria não pertence a nenhuma religião específica, embora todos os credos estejam representados.

Coerentemente, o sistema educacional é fortemente baseado no estímulo à aprendizagem independente. As mesmas autonomias e flexibilidades que as bicicletas permitem no trânsito, conjugando individualidade e o respeito ao coletivo, inspiram as múltiplas metodologias e abordagens personalizadas adotadas nas escolas. Entre três e quatro anos a criança deve ir para a escola primária, a qual dura oito anos. Antecedendo a escola primária, entre dois e quatro anos, existe a pré-escola, a qual não é obrigatória e tem ênfase no desenvolvimento social e recreativo. Na escolha das escolas primárias há prioridade aos alunos cujas pré-escolas são a elas respectivamente associadas.

Assim, quem entra mais cedo tem preferência na seleção dos melhores centros primários de ensino, com transição mais fácil entre os dois níveis escolares.

“Um quarto da Holanda está abaixo do nível do mar e três quartos seriam inundados com frequência se a natureza fosse deixada sem controle humano. A água, ao invés de inimigo potencial, transformou-se na maior aliada, sendo que 60% do território é ocupado por pôlders, terrenos baixos e alagáveis protegidos por diques e utilizados para moradia e, especialmente, para produção agropecuária”.

As aulas, em geral, são de segunda a sexta, das 8h30 às 15h, sendo que o número total de aulas deve obrigatoriamente completar 940 horas por ano, ainda que cada escola tenha razoável autonomia de como ocupar o tempo previsto. Crianças entre seis e doze anos que se mudaram recentemente e não falam o difícil idioma local (dutch) são designadas para classes especiais, pelo período que for necessário (normalmente um ano é suficiente), onde a prioridade é o aprendizado do idioma e da cultura local.

* Reitor da Universidade Estácio de Sá.