Polícia

Tio e sobrinho são assassinados com tiros no peito em suposto confronto com PMs

Fato ocorreu por volta na Rua Raimundo Penafort, próximo a uma vila residencial e da casa de policial militar

Créditos: Nonato Sousa

A morte de dois homens na noite de quinta-feira (6), no bairro Asa Branca, supostos assaltantes e envolvidos com facção criminosa, revoltou parentes e amigos das vítimas, que contestam as acusações da polícia e acusam colegas do policial que atenderam a ocorrência de terem executado as vítimas sem piedade. Eles cobram justiça.

Os dois homens, que eram tio e sobrinho, foram identificados na manhã dessa sexta-feira (7) como John Cleiton da Silva Goulart, 28, e Izac Gabriel Lima dos Santos, 19, que neste domingo (9) faria aniversário. A mãe de Izac Santos, Glaiquete Lima de Souza, irmã de John Goulart, acompanhada de outras familiares, conversou com a reportagem do Roraima em Tempo no Instituto de Medicina Legal (IML), enquanto esperava a liberação dos corpos para o velório e sepultamento.

CRIME

O fato ocorreu por volta das 21h na Rua Raimundo Penafort, próximo a uma vila residencial e da casa do PM, identificado apenas como Rosiel. Tio e sobrinho foram socorridos na carroceria de uma picape S-10 da polícia, mas a suspeita da família é de que eles já chegaram mortos ao hospital.

Fotos dos corpos divulgadas no WhatsApp, ainda na noite do crime, mostram que as vítimas tinham marcas de pelo menos dois tiros no peito, cada uma. A família relata ainda que elas foram espancadas.

Glaiquete Souza informou que o filho e o irmão eram trabalhadores e, com exceção de Izac, que certa vez foi conduzido a uma delegacia por posse de arma de fogo, ambos nunca se envolveram com práticas criminosas. Ela disse que o filho atualmente trabalhava numa empresa de refrigeração com o pastor da igreja evangélica que ele frequentava.

Já John Goulart era garimpeiro e tinha maquinário num garimpo na região de Mucajaí. "Ele chegou a Boa Vista no domingo. Veio fazer compras e voltaria na próxima semana. Também trabalho no garimpo com meu irmão e cheguei segunda-feira, vim para a festa de aniversário do meu filho neste domingo [9]. Agora, ele e meu irmão estão mortos", lamentou.

POLÍCIA

De acordo com informações da polícia, "por volta das 21h10 meliantes que estavam em dois veículos, sendo um Ford Fiesta cor prata e um Gol cor preto, atentaram contra a vida de um policial militar em sua residência". Segundo nota da polícia, os dois desceram do Ford Fiesta, cada um com uma arma em punho, quando começou uma gritaria, momento em que o policial ouviu e, temendo pela sua vida e de sua família (mãe, esposa e filhos menores), pegou sua arma e foi até a frente da residência. Ainda de acordo com a polícia, os suspeitos começaram a atirar na direção do policial, que revidou, sendo atingido na perna esquerda.

No momento da troca de tiros, conforme a nota, uma equipe da Polícia Militar passava nas proximidades e, ouvindo os tiros, chegou rapidamente ao local, quando os suspeitos também atiraram, "sendo repelidos de imediato, sendo alvejados".

"A guarnição socorreu o policial e os meliantes, levando os mesmos na viatura até o Hospital Geral de Roraima, onde, após os primeiros socorros, vieram a óbito, e o policial está em observação", afirma a polícia.

Com os suspeitos foram encontrados, além das duas armas, mais de R$ 3 mil, relógios, joias e celulares.

"Os outros meliantes que estavam dando apoio no Gol preto se evadiram do local. Algumas vítimas dos meliantes que morreram os reconheceram no HGR, inclusive, também alguns bens roubados", informou a nota da polícia.

ESCLARECIMENTO

Contrariando o relato da polícia, na tarde de sexta-feira, a família fez circular pelo WhatsApp uma extensa nota esclarecendo o caso.

"Por volta das 21h, John Cleiton da Silva Goulart e Izac Gabriel Lima dos Santos foram fazer uma cobrança na casa de Roniel Silva, que vendeu uma arma de Airsoft para Gabriel com nota fiscal e depois a pediu emprestada. Desde então, ficava fugindo de Gabriel e se escondendo com a arma para não devolvê-la", afirmou.

"Quando os dois chegaram à casa de Roniel, houve uma discussão, e o policial, que mora ao lado, apareceu. Roniel e os demais falaram que John e Gabriel estavam tentando assaltar a casa dele. John era garimpeiro, tinha duas máquinas no garimpo. Ele não tinha nenhuma necessidade de roubar nada de ninguém e menos ainda fazer assalto como estão falando. Os dois estavam com dinheiro no carro. John com R$ 7 mil para comprar outro motor para levar para o garimpo, e Gabriel estava com o dinheiro que a mãe dele havia dado para pagar o carro que ele tinha comprado", diz a família.

Ainda de acordo com a nota da família, "o policial mandou um áudio acionando outras viaturas alegando que havia sido baleado por um dos dois [o que não aconteceu, esse policial nunca deu entrada no Hospital Geral]. John e Gabriel não dispararam nenhum tiro. As equipes policiais chegaram ao local atirando e John foi baleado na perna esquerda. Então, logo em seguida, os PMs os levaram na caminhonete para matá-los", acusa a família.

"Os policias deram fim no dinheiro e deixaram R$ 3 mil. Sobre os demais pertences que alegaram ser roubados e que supostas vítimas haviam reconhecido os suspeitos [isso também não existe], as únicas vítimas desta história são John e Gabriel. Temos nota fiscal das joias, relógio e celulares. Não esperaram a ambulância e os levaram para matá-los. Deram dois tiros no peito de cada um. Eles alegaram no depoimento que mataram porque os dois admitiram que eram de facção, o que não é verdade", afirmou a família.

"Nenhum dos dois era bandido como estão falando nos noticiários. Eles não eram assaltantes, eles não eram de facção nenhuma. E nós, da família, vamos até o fim para limpar a imagem de tio e sobrinho que foram cruelmente assassinados pelos policiais. Luto pelas duas vidas que foram tiradas por conta de policiais mal informados e com sede de matar qualquer um" protestou.

MARCAS

Na tarde de sexta-feira, a reportagem esteve no local do crime e ainda havia mancha de sangue das vítimas no chão e marcas de tiros na mureta da vila residencial.

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