Questão de Opinião

A escalada do ódio político no Brasil


Durante a crise política de novembro de 1891, Deodoro da Fonseca renunciou por não concordar totalmente com o texto final da nova. Decidiu dar um golpe militar, fechar o Congresso Nacional e convocar novas eleições parlamentares com o objetivo de alterar a Constituição. Foram anos de conflitos, inclusive armados, que mataram muita gente

O atual ódio político entre lulistas/petistas e bolsonaristas/anticomunistas já superou o confronto político que havia entre getulistas e lacerdistas na década de 1950, durante a guerra fria, que culminou com o trágico desfecho em 24 de agosto de 1954: o suicídio de Getúlio Vargas. Atualmente, a imprensa é acusada de ser golpista ou comunista e isso tende a agravar o conflito, principalmente agora, durante as eleições presidenciais de domingo, e ainda mais no segundo turno, se houver.

Só há um paralelo histórico que supera a atual radicalização política e polarização ideológica: o confronto entre a imprensa monarquista e a imprensa republicana que ocorreu na última década do século 19. O imperador Dom Pedro II havia sido derrubado e, posteriormente, morrera no exílio, em França. Inviabilizado o Terceiro Reinado, não houve apoio à reforma agrária para assentar os ex-escravos e tampouco medidas como o voto feminino (ideia da Princesa Isabel) e a ampliação da rede de ensino público para reduzir o analfabetismo. Portanto, havia um clima de ressentimento político e desencanto com a mudança do regime.

Deodoro da Fonseca, então chefe do governo provisório, foi eleito presidente da República em eleição indireta. Posteriormente, durante a crise política de novembro de 1891, ele renunciou por não concordar totalmente com o texto final da nova Constituição em vigor, que fora promulgada em 24 de fevereiro daquele ano. Decidiu dar um golpe militar, fechar o Congresso Nacional e convocar novas eleições parlamentares com o objetivo de alterar a Constituição. Foram anos de conflitos, inclusive armados, que mataram muita gente.

Após uma década perdida na economia, que começara com o Encilhamento (especulação na Bolsa de Valores) logo após a Abolição (1888), o País estava em completa bancarrota em 1898. Eleito como novo presidente da República, Campos Sales foi a Londres com o objetivo de obter um empréstimo internacional, mesmo antes da posse. Posteriormente, várias medidas de austeridade foram implantadas durante seu governo para estabilizar a economia. Houve um acordo entre as elites regionais que resultou na Política dos Governadores, durante as posteriores três décadas. Todavia, devido ao restrito sufrágio nas eleições, a população ficou afastada das decisões até 1930, em decorrência do controle político do governo federal pelas oligarquias regionais.

A situação atual do País é completamente diferente e muito mais complexa, dada a total imprevisibilidade do cenário político nacional e das eleições presidenciais de agora. De qualquer forma, uma reflexão sobre o ódio político e sobre a falta de autocrítica é válida tanto sobre o passado como sobre o presente. Por quê? Por causa das consequências de atos impensados, cujos resultados não podem ser previstos de antemão por todos os atores políticos da nação e que poderão levar a um novo caos.

O autor é jornalista, editor de Opinião, Economia e Mundo do jornal RORAIMA em tempo.

Plinio Vicente