Questão de Opinião

Boleiros do lavrado e as memórias do futebol macuxi

Créditos: PLÍNIO VICENTE

PLÍNIO VICENTE*

 

"O futebol hoje jogado em Roraima não guarda nada, nem mesmo a semente, daquele que era jogado há 30, 40 anos atrás. Esse futebol pode ser resgatado e aí depende do poder público. O projeto poderia contemplar a construção de novos estádios, mesmo que pequenos e modestos, mas que imitem, por exemplo, o que a prefeita Teresa Jucá fez ao erguer a Vila Olímpica".

 

Na tarde-noite do último dia 28 tive a feliz oportunidade de viajar no tempo e revisitar uma época em que eu, recém-chegado a Roraima, conheci o verdadeiro e autêntico futebol macuxi, aquele que era jogado não só no estádio Canarinho. Era o único campo com medidas oficiais, inicialmente batizado 13 de Setembro pelo regime militar e depois rebatizado Flamarion Vasconcelos, em homenagem a uma lenda da reportagem esportiva desta terra.

Ao poucos fui conhecendo personagens que faço questão de homenagear neste texto por terem sido meus professores nessa matéria, a que conta a memória ainda viva do pé-bola roraimense: Ribeirão, Chiquitão, Alírio, Piaba e outros tantos, mas que para não cometer injustiças próprias do esquecimento deixo de citar. Com eles pude ler as páginas passadas desse livro, que vem sendo escrito desde os tempos em que a área onde está a maternidade e na praça em frente a ela, que recebeu a denominação de João Mineiro, um mestre de obras carioca, apaixonado por futebol, construiu ali o primeiro estádio de Boa Vista.

Mais tarde, já me sentindo um roraimeiro, o termo gentílico para quem veio de fora para ficar - quem só veio esperar a chuva passar, ganhar dinheiro e ir embora é chamado de roraimoso - conheci a verdadeira alma do futebol deste pedaço do Brasil: aquele jogado no Parque Anauá, onde era disputado um campeonato que se transformou numa das mais importantes competições da cidade. Promovido por um abnegado senhor, Gercino Nascimento, ali pude gozar não apenas o prazer se assistir a jogos de um futebol autêntico, mas ter a honra de ganhar dois títulos como técnico de um time formado pelo policiamento de trânsito, o Radar.

Desta feita, ao reencontrar os boleiros do passado, que se reuniram para uma série de homenagens no estádio Ribeirão, confesso que me emocionei. Em cada rosto, mesmo que, como o meu, tenha sido maltratado pelo tempo, a chama da juventude ainda brilha e aquece a alma desses rapazes que tiveram a oportunidade de voltar a ser meninos outra vez ao se reunirem em volta de uma simples bola de futebol.

Todos, cada um, sem exceção, têm histórias para contar. São testemunhas vivas da trajetória de um esporte que irmana ricos, remediados e pobres, sem qualquer discriminação. Memórias que deveriam ser registradas em livro, com relatos deles mesmos, ou em vídeos e imagens, que gravariam o tempo de ontem e de hoje para toda a eternidade.

O futebol profissional hoje jogado em Roraima não guarda nada, nem mesmo a semente, daquele que era jogado há 30, 40 e até 50 anos atrás. Esse futebol pode ser resgatado e aí depende do poder público. O projeto poderia contemplar a construção de novos estádios, mesmo que pequenos e modestos, mas que imitem, por exemplo, o que a prefeita Teresa Jucá fez ao erguer a Vila Olímpica. Seriam os santuários onde, com estrutura adequada, se poderiam formar novos craques. Como faziam Ribeirão e seus companheiros de saudosa memória, "professores" brilhantes em um passado não muito distante.

 

*O autor é jornalista e editor de Opinião, Economia e Mundo do jornal RORAIMA em tempo.


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