Questão de Opinião

Brasil, campeão de mortes violentas

A morte é um incidente biológico, faz parte do processo da vida de todo ser vivente


A morte é um incidente biológico, faz parte do processo da vida de todo ser vivente. Ou seja, tudo que faz parte dos mundos vegetal animal nasce, cresce e fatalmente em algum momento de sua existência no Planeta Terra chega ao seu fim. É o que se convencionou chamar de morte. Pode ser um dia depois ou dezenas - e até uma centena - de anos depois. No caso dos animais, os fatores podem se diversos, são as chamadas "mortes morridas" ou "mortes matadas", usando uma figura de linguagem meio idiota; no caso das plantas, idem.

As ocorrências mais comuns são aquelas provocadas por doenças individuais, como um infarto ou câncer, ou males coletivos, de largo espectro, como as pragas, pestes, epidemias, endemias, pandemias ou guerras e conflitos como vemos hoje espalhados por todos os cantos dos cinco continentes. Nestas últimas incluo as mortes violentas, em que as pessoas têm suas vidas arrancadas por atos de violência, muitas vezes inexplicáveis ou até mesmo acidentais, como ocorrem com as pessoas de todas as idades vítimas das balas perdidas. Ou de civis que são pegos no meio de fogo cruzado nas guerras ou disputa entre grupos antagônicos.

A verdade irrefutável é que a morte não escolhe lugar, hora ou quem. Mas atualmente temos países em que ela tem estado muito mais presente que em outros. Como no Brasil. Sim, o Brasil mata. Mata muito. Entre 2001 e 2015 houve 786.870 homicídios, a enorme maioria (70 %) causada por arma de fogo e contra jovens negros. Essa notícia foi dada pelo jornal El

País em 12 de dezembro, destacando que o Brasil é "o país que mais mata no século XXI". A prova, afirma o jornal, é que desde que começou o conflito sírio (marco, 2011) já morreram 330.000 pessoas, e na guerra do Iraque, onde o conflito começou em 2003, morreram 268.000 pessoas. Em ambos os conflitos, matou-se menos que o Brasil. Segundo documentário do jornal O Globo, o Brasil matou em 15 anos o equivalente à população de João Pessoa, Frankfurt (Alemanha) ou Sevilha (Espanha).

A insegurança é um dos graves problemas que espera o futuro presidente, a ser eleito em 2018. E não será resolvido com mais repressão, mais policiamento ou mais mortes, se levado em consideração que as forças policias brasileiras têm o hábito de matar. O problema que se encontra na raiz de tudo é a exclusão social atávica. Ou se resolve a exclusão ou esta matará cada vez mais no Brasil.

Podem-se explicar as mortes de diversas maneiras - a cultura que justifica os crimes em defesa da honra, o machismo e a violência policial, por exemplo -, mas sempre se voltará ao ponto de partida, a exclusão. E isso explica o fato de a maioria dos crimes atingir jovens negros, justamente aquela parcela da população que mais sofre com a exclusão e com os preconceitos. Assim, à exclusão econômica soma-se a exclusão pelo preconceito. Vencê-los exige tempo, planejamento, políticas públicas e vontade política. Não existem soluções mágicas. Nem só boa vontade. E muito menos apenas discursos.

FRANCISCO VIANA - O autor é jornalista e doutor em Filosofia Política (PUC-SP). [email protected]

SEE ALSO ...