Questão de Opinião

De assassinos a heróis: desertores venezuelanos transitam nas fronteiras

Um dos soldados que abandonou a farda bolivariana foi Carlos Zapata


Quando Nicolás Maduro mandou fechar a fronteira com o Brasil em 21 de fevereiro, por dever de ofício fui ver de perto o que se passava na divisa entre os dois países. Desembarquei dois dias depois, 23, justamente a data marcada para a entrega de ajuda humanitária internacional à Venezuela.

Não demorou muito para que centenas de venezuelanos ocupassem, com seus protestos contra o chavismo, o chamado marco BV-8, onde tremulam as bandeiras das duas nações. Portando faixas, bandeiras, rostos pintados com as cores ouro, azul e vinho tinto, compuseram o que mais parecia um cenário de guerra. Guerra mesmo, pois por volta das 5 da tarde daquele sábado o local pegou fogo. Literalmente. Carros incendiados, pedras, cassetetes, escudos, bombas e gás lacrimogêneo.

A resposta do presidente chavista veio com todo o seu autoritarismo. Mandou prender, bater e até matar. Deixou explícito que não queria ajuda e que é ele quem manda no seu país, que o povo e os militares estão com ele e ponto final. Só que não é bem assim. Em meio às ácidas manifestações, militares da Guarda Nacional Bolivariana foram desertando para o lado brasileiro. Rotas clandestinas foram transformadas em um caminho sem volta por decisões que não podem ser desfeitas.

Um dos soldados que abandonou a farda bolivariana foi Carlos Zapata. Depois de atravessar para cá durante a madrugada, decidiu conversar com a imprensa já sob o sol escaldante de Pacaraima. Contou que fugiu por não concordar com o regime do ditador. E não foi só Zapata. Até o dia em que fiquei na fronteira, outros 12 como ele já haviam buscado refúgio no Brasil. Para nós, jornalistas, um prato cheio; para os venezuelanos democratas, verdadeiros heróis.

"Não queremos ser lembrados como assassinos, mas defensores do povo" declararam juntos os militares desertores. Mas o olhar de cada um estampava o medo de perseguição à família que ficara. Entretanto, um detalhe me chamou atenção quando questionei Zapata sobre onde estavam os familiares pelos quais temia. "Em Táchira", me respondeu. "Do outro lado da Venezuela", completou.

Dias depois me deparei com uma foto ilustrando matéria que o editor de Opinião, Economia e Mundo do RORAIMA em tempo, Plínio Vicente, havia enviado para a Redação. Nela, buscado asilo na Colômbia, já que seu pedido de refúgio no Brasil havia sido temporário, Carlos Zapata atravessava a fronteira entre Táchira e Cúcuta. Perguntei-me se, após a deserção, o militar estaria aliviado. É que ele me frisara que "Táchira está 'cerca' [perto em espanhol] da fronteira". O que me leva a crer que o reencontro com os familiares, no lado de lá, já estaria premeditado.

Hoje somam-se mais de mil os militares que, como Carlos Zapata, fugiram da ditadura. Os desertores levam consigo esperança, raiva, amor, incerteza, medo, companheirismo e por aí vai. Mas a crise adubada por Maduro está longe do fim e a pergunta que não deve lhes sair da cabeça é: 'Quando poderei retornar ao meu país?'.

JOSUÉ FERREIRA - O autor é jornalista e editor do jornal RORAIMA em tempo. [email protected]

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