Questão de Opinião

Lusofonia e francofonia, em busca da hegemonia cultural

Créditos: ANDRÉ HOELZLE

ANDRÉ HOELZLE*

 

"A lusofonia procura uma estratégia comum para fazer frente à pressão anglo-saxónica como instrumento de comunicação dominante e padrão cultural hegemónico. São atualmente 263 milhões de falantes na Comunidade de Países de Língua Portuguesa (CPLP), segundo os números mais atuais, o que torna o português a quinta língua mais falada no mundo".

 

A globalização não tem nem deve ter uniformidade, nem a hegemonia de uma só língua e cultura. Esta é a conclusão do Congresso da Lusofonia e da Francofonia, realizado em Paris. O fato de um idioma como o inglês se ter tornado língua franca em áreas tão diversas como os negócios, a produção e divulgação de conhecimento, as artes e espetáculos, sugere uma espécie de superioridade de uma identidade cultural sobre as restantes, o que não é admissível, pois não há culturas superiores a outras. Foi o que sustentou Isabelle de Oliveira, da Universidade Sorbonne Nouvelle, organizadora da iniciativa que reuniu filólogos de vários países onde ocorre a influência dos idiomas francês e português.

A resposta, ou parte da resposta, a este fenómeno definido como uma uniformização que se pode tornar uma doença está na mutualização de esforços da lusofonia e da francofonia. Espaços que aglutinam vários séculos de história e são dois organismos vivos e relevantes na esfera linguística e cultural. E se persistem fraquezas na concertação político-diplomática e numa geoestratégia da língua no que é o principal instrumento intergovernamental da lusofonia - a Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP) reviu e adotou uma nova estratégia em 2016 - os dois espaços integram em si um peso específico, que tenderá a crescer. Não só pela dimensão demográfica como pela especificidade das respetivas culturas onde são múltiplos os pontos de intercessão.

O português é uma língua global, acentua a CPLP, que admitiu a possibilidade de os Estados membros voltarem a abrir a discussão sobre o acordo ortográfico. Angola, Brasil e Moçambique ainda não o ratificaram. Mas considera-se que há outras questões mais urgentes e relevantes para a CPLP, desde logo um maior reconhecimento entre cidadãos nos Estados membros, funcionando ainda muito a organização ao nível dos chefes de Estado e dos governos. Essa aproximação às populações deve ser uma prioridade.

Exemplo de algo importante nesta matéria é os membros da CPLP conseguirem um acordo sobre a mobilidade no espaço da organização dos respetivos cidadãos. Estes são atualmente 263 milhões de falantes, segundo os números mais atuais, o que torna o português a quinta língua mais falada no mundo.

Uma das ambições é medir a dimensão destes dois espaços (lusofonia e francofonia), como assinalou o presidente do conselho académico da Sorbonne Nouvelle, Laurent Creton, e efetuar uma convergência de esforços para os dotar em conjunto de um projeto próprio, atento aos desafios da contemporaneidade - sejam eles relativos à biodiversidade, à cultura ou à economia e relações sociais.

A estratégia de uma aliança entre duas línguas não se esgota na economia e conhecimento. Qualquer área pode se tornar instrumento na criação de diversidade e na materialização de um sentimento de pertencimento e identidade.

 

*O autor mora, estuda e trabalha em Preston (Lancashire, UK). [email protected]

 


SEE ALSO ...