Questão de Opinião

Mindelo, uma agradável lembrança

Naquele tempo, e espero que ainda, não havia sobressaltos em Mindelo. Tudo "andava" normalmente


Vasculho minhas lembranças e encontro uma das incontáveis supressas que colhi nestes meus quase 60 anos de jornalismo. Uma delas conto agora, rememorando os tempos em que a idade e o vigor físico ainda me permitiam viajar mundo afora.

Mindelo é uma cidade de São Vicente, uma das dez ilhas do arquipélago de Cabo Verde, ex-colônia de Portugal no Oceano Atlântico a meio caminho entre o Brasil e a Europa. Lá não tem água, chove pouco e os rios não são perenes. Também não tem petróleo, nem agricultura, muito menos indústria. Apesar disso, na minha passagem por lá a caminho de Lisboa, me surpreenderam sua beleza, ruas limpas, asfaltadas e sem buracos.

Lá vi calçadas largas, sem obstáculo para o transeunte, guias - meios-fios - alinhadas, numa harmonia urbana agradável de ver. A arquitetura é semelhante à do Brasil. Chamou minha atenção um prédio, sede da polícia, pintado com esmero, identificado com uma placa sem amassados ou ferrugem. O trânsito era sereno, a sinalização e os limites de velocidade obedecidos, apesar de não haver semáforos nos cruzamentos das ruas e nem guardas escondidos multando os cidadãos.

Naquele tempo, e espero que ainda hoje, não havia sobressaltos em Mindelo, tudo "andava" normalmente. Tomei café num quiosque da praça próxima ao centro, os bancos eram limpos, sem sinais de vandalismo e, pasmem!... banheiros públicos limpos. Dei com uma mulher sentada no masculino, tomando conta, sem nenhum problema, raríssimo. O porto, integrado à paisagem da cidade, era totalmente estruturado para receber bem o turista. 

Uma jovem me perguntou se eu era brasileiro. Disse-me que havia morado no Brasil e tinha saudade da simpatia do povo e das novelas. A programação da televisão brasileira era - e creio que ainda é - vista por lá. Com sotaque lusitano falou que Cabo Verde estava com um problema sério "preocupando" o governo: a televisão do Brasil diverte, mas mostra cenas de assalto e bandidagem que os marginais da ilha estariam copiando, tirando o sossego deles. Hoje, interpassando essas lembranças, me pergunto: como ficam os mindelenses com os políticos cabo-verdianos assistindo aos noticiários de Brasília...! 

Ao contrário de Cabo Verde, o Brasil é rico, esplendorosamente grande, tem água, petróleo, indústria, agricultura pujante, mas as ruas e as calçadas são esburacadas, as praças mal conservadas, as cidades pichadas, delegacias deterioradas e portos despreparados para receberem turistas. É só ver as imediações dos principais cais brasileiros que recebem navios de turismo.

Nós, brasileiros, ainda não nos damos conta do desmazelo com que agimos na forma de receber gente que escolhe a terra de Vera Cruz como destino de suas viagens. E depois ficamos lamentando a pouca presença de turistas estrangeiros em nossos paraísos abandonados. Que tal pararmos de culpar o colonizador português? 

PLÍNIO VICENTE - O autor é jornalista e editor de Opinião, Economia e Mundo do Roraima em tempo. [email protected]

 


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