Questão de Opinião

O bolívar virou sinônimo de vergonha

Não se sabe quantos venezuelanos já estão empregados, quantos foram embora para Manaus e outros centros atrás de alguma coisa que garanta uma renda


A invasão venezuelana, que entre pobres e miseráveis trouxe também alguns remediados, mistura lágrimas e risos e forma um novo substrato social na terra de Makunáima.

Enquanto os sem-nada fazem dos cruzamentos das principais avenidas de Boa Vista seu local de trabalho, mendigando no sinal fechado a próxima refeição, outros têm nesses mesmos locais balcões de emprego, portando cartazes com frases em português, às vezes mal escritas, apelando por alguma das ocupações para as quais dizem ter aptidão.

Não se sabe quantos venezuelanos já estão empregados, quantos foram embora para Manaus e outros centros atrás de alguma coisa que garanta uma renda no final do mês; nem quantos ainda estão vivendo a angústia de não ter o que fazer e, por isso, não ter o que comer, nem onde morar sem a insegurança que enfrentavam na pátria de Simón Bolívar. Mas se sabe, pelo número de pedintes e de suplicantes, que por aqui ainda há muitos sem prato e sem teto.

No entanto, há os dessa leva, os quais, forçando a barra, já se podem dizer refugiados, que não vieram de mãos abanando. Trouxeram efetivos financeiros e, aos poucos, estão conseguindo formar um bom capital monetário numa atividade crescente e que, para quem se lembra, levou à morte o lendário Ceará do coco.

São cambistas trazendo bolívares, sabe-se lá quantos, para trocá-los por reais e depois por dólares.

Para alguns, essa atividade está rendendo e bem, pois há todo um esquema de contrabando de cédulas bolivarianas, em especial aquela que traz a efígie do Libertador, que aqui "caçam" outras de 100, as nossas azulzinhas, que depois "caçam" as verdinhas com a imagem de Benjamin Franklin.

O problema é que, diante da enxurrada de bolívares que vinha atravessando o BV-8, os chavistas resolveram fechar a torneira e, agora, a correria é conseguir bastecer Boa Vista. Esta semana, enquanto o governo Maduro mantinha a cotação oficial em torno de BFs 2,60 por R$ 1, no paralelo o bolívar negro, o tal de soberano, recém lançado com o corte de muitos zeros, valia 960 por R$ 1. Como disse um desses cambistas, se houvesse mais dinheiro venezuelano na praça, o câmbio passaria de 2 mil por 1.

Os roraimenses mais antigos, ou quem veio de fora e aqui assentou praça lá pelo idos dos primeiros anos da década de 1980, devem lembrar-se que, para ir a Margarita, comprar dólares era um sacrifício.

Mesmo havendo pelo menos três doleiros confiáveis abastecendo a procura, entre eles o saudoso Pedro José de Lima Reis e o também finado Ceará do coco, que morreu enfrentando a Polícia Federal no centro da cidade.

Como a Venezuela fazia um severo controle de suas divisas, o melhor negócio era viajar já com os bolívares na carteira, mesmo que, nessa época, a cotação girasse - pasmem! -, em torno de 150 cruzados por 1 bolívar. Mesmo porque, levando dólares, era preciso cambiar já em Upata, pois ninguém queria correr o risco de ser apanhado com a moeda americana no caixa. Bons tempos aqueles em que bolívar ainda não era sinônimo de vergonha.

PLÍNIO VICENTE - O autor é jornalista, editor de Opinião, Economia e Mundo do jornal RORAIMA em tempo. [email protected]

SEE ALSO ...