Questão de Opinião

O Reino Unido, o Brexit e suas mentiras


ANDRÉ HOELZLE*

"Acordado o brexit, o Reino Unido já não terá qualquer poder de influência sobre as regras que regem a UE. Deixará de ter representantes no Parlamento Europeu, voto no Conselho, mas seguira obrigado a dotar o orçamento em vigor da contribuição que ainda lhe corresponde, ou seja, terá de pagar cerca de 11 bilhões de euros, pouco menos de R$ 46 bilhões".

Tenho conversado com professores de diversas áreas da Universidade Central Lancashire (Uclan), aqui em Preston, e o clima que constatei é de total desânimo com o futuro do Reino Unido às vésperas de ele deixar na data previamente marcada, março do ano que vem, a Comunidade Econômica Europeia. Os 95% de áreas que já estariam fechadas nas negociações entre Londres e os 27 governos do bloco continuam condicionados pelos 5% que nenhum dos Estados-membros, a não ser a Irlanda, controla.

O fato de estar quase tudo acordado não responde à realidade. É que, em último caso, não existindo nenhuma solução criativa para a questão irlandesa, não haverá acordo em dezembro a tempo de a primeira-ministra Theresa May, por força da lei britânica, o enviar à Câmara dos Comuns para ser votado em janeiro.

Nesta fase, além da questão irlandesa que define a existência ou não de um acordo sobre a saída, é importante olhar para os calendários. Desde logo porque, para se cumprir os dois anos abertos pela formalização do Artigo 50 do Acordo de Roma, que criou a União Europeia como comunidade econômica, e que terminam em 29 de março de 2019, resta um mês e meio. Nesse tempo as equipes de negociação terão que chegar a três objetivos: um texto satisfatório final; a previsível revisão dos termos do período de transição que termina em 31 de dezembro de 2020; e a aprovação das linhas gerais da relação entre o Reino Unido e a União Europeia a partir dessa data.

Se forem solucionados todos os problemas com Belfast, Dublin e os demais 26 Estados-membros satisfeitos com os termos finais, cumpridos todos os procedimentos de aprovação nos Comuns e ainda no Parlamento Europeu, o Reino Unido sairá oficialmente da UE no dia 30 de março de 2019, certo? Errado. De acordo com os termos em cima da mesa dedicados aos 21 meses do período de transição - que coincidem com o final do orçamento fiscal comunitário em vigor -, o Reino Unido continuará vinculado às regras da EU.

Sabe-se de antemão que, acordado o brexit, o governo britânico já não terá qualquer poder de influência sobre as regras que regem o Estatuto da União Europeia. Deixará de ter representantes no Parlamento Europeu, voto no Conselho, mas seguira obrigado a dotar o orçamento em vigor da contribuição que ainda lhe corresponde, ou seja, pagará cerca de 11 bilhões de euros, pouco menos de R$ 46 bilhões pelo câmbio desta segunda-feira (22).

Entre os mestres que ouvi, aqueles mais irritados têm a mesma irônica opinião: estão de parabéns os brexiters, esses brilhantes estrategas sempre na vanguarda da defesa dos superiores interesses do povo britânico. Se já tinham sido mentirosos em campanha, serão danosos por muito tempo. A não ser que a voz das ruas consiga impor-se e obrigar o governo a aceitar a realização de novo referendo. O qual, inevitavelmente, jogará todas as negociações de agora na lata do lixo.

*O autor mora, estuda e trabalha em Preston (Lancashire, UK). [email protected]