Questão de Opinião

O Reino Unido perdeu o rumo

Créditos: ANDRÉ HOELZLE

ANDRÉ HOELZLE*

 

"A União Europeia ainda não está pronta para se reestruturar num grupo de países altamente integrados da zona euro e uma periferia com organização mais livre, liderada pelo Reino Unido em nome do brexit. Isso valerá os 50 bilhões de libras que Theresa May oferece para desligar o Reino Unido da UE? Claro que não".

 

O que compram 50 bilhões de libras? Um acordo comercial? A resposta é provavelmente sim, mas é quase certo que não é o tipo de acordo com a União Europeia que o Reino Unido procura nas suas negociações de saída do bloco econômico continental. Este foi o tema de um painel do qual participei na Universidade Central de Lancashire, aqui em Preston. A conclusão foi de que os problemas do Reino Unido continuarão sendo uma preocupação para a UE, já que não foram feitos progressos suficientes a fim que as negociações do brexit cheguem finalmente a uma conclusão, ameaçadas que estão pelo fantasma de um novo referendo. Mas a questão mais importante é o que virá a seguir se o Reino Unido deixar mesmo o bloco europeu?
Vale a pena examinar as atitudes políticas em relação aos acordos comerciais na política europeia. A aplicação provisória de um dos acordos comerciais mais recentes, o Acordo Econômico e Comercial Global UE-Canadá, conhecido pelas iniciais em inglês CETA, quase não passou há um ano no Parlamento da região belga da Valônia. A sua ratificação final esteve ameaçada durante as negociações para a formação de uma nova coligação parlamentar na Alemanha.

A ratificação de acordos comerciais não pode ser acordada contratualmente. É política.
Se o governo do Reino Unido tentar justificar a fatura de 50 bilhões do brexit em termos apenas de um futuro acordo comercial ficará sujeito a acusações de que é um desperdício total de dinheiro. A UE ainda não está pronta para se reestruturar num grupo de países altamente integrados da zona euro e uma periferia com organização mais livre, liderada pelo Reino Unido em nome do brexit. Isso valerá os 50 bilhões de libras que Theresa May oferece para desligar o Reino Unido da UE? Claro que não. A média simples da tarifa do país mais favorecido da UE para produtos não agrícolas foi de 4,2% em 2014. O Reino Unido exportou bens e serviços no valor de 236 mil milhões de libras para a UE e importou 318 mil milhões.

O Reino Unido começou o caminho para o precipício quando a primeira-ministra Theresa May anunciou que o país deixaria o mercado único e a união aduaneira. O ponto crítico não chegou em 2019, como muitos pensavam, mas só mesmo quando o período de transição terminar e ele está sendo extremamente turbulento. Há um fosso muito maior entre uma adesão à união aduaneira e um acordo comercial simples do que entre um acordo comercial simples e um acordo da Organização Mundial do Comércio.
No Reino Unido, muitos, tanto os defensores do brexit como os da permanência na UE, acreditam erradamente numa sucessão de escolhas. A realidade é que a UE nunca poderá oferecer um acordo de comércio que possa favorecer os britânicos. Pode até não ser capaz de oferecer um simples. É bem possível que o Reino Unido acabe pagando os 50 bilhões e não obter muito em troca. Ou não pagar esses 50 bilhões quando a realidade bater à porta de Downing Street, nº 10, a sede do governo.

 

*O autor mora, estuda e trabalha em Preston (Lancashire, UK). [email protected]

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