Questão de Opinião

Os passos silenciosos do fascismo


ANDRÉ HOELZLE*

"O mundo democrático tem muito com o que se preocupar à medida que o fascismo, que esteve à espreita o tempo todo, agora avança para além da Europa. Os políticos moderados deviam saber que não são as greves ou os abaixo-assinados que mudam as políticas dos países. São os votos do povo, aquele que manda nos destinos de uma nação"

Já não há como negar: a culpa pela expansão da extrema-direita por todo o Mundo é mesmo de governos democráticos. A culpa esta em grande parte de uma geração de políticos que obrigou uma outra geração a desinteressar-se pela política. Para os mais novos, pertencer a um partido moderado já não é "cool". Cresceram com as televisões e com a Internet dando tempo nas telas e nas redes sociais a políticos duvidosos que caíram em desgraça. Preferem radicalizar-se.

Agora, das duas uma: ou Jair Bolsonaro é como a maior parte dos políticos que prometem, prometem e não cumprem nada, ou é, de fato, um fenômeno completamente inesperado e transforma o Brasil na ditadura fascista que todos tememos. Até o podem criticar. Mas a partir de hoje é ele que vai ditar o jogo, num tabuleiro para o qual tantos políticos sem fronteiras têm contribuído. A culpa é deles, não de quem foi votar.

O mundo democrático tem muito com o que se preocupar à medida que o fascismo, que esteve à espreita o tempo todo, agora avança para além da Europa, onde já fincou raízes na Itália, Polônia, Hungria e Áustria. Os políticos moderados devem começar a pensar de forma menos autista e perceber as mensagens que o povo tem enviado. Não são as greves ou os abaixo-assinados que mudam as políticas dos países. São os votos do povo, aquele que manda nos destinos de uma nação.

A antiga secretária de Estado norte-americana Madeleine Albright descreve Donald Trump como o mais antidemocrático presidente da era moderna. Pois ele já recebeu um telefonema de Bolsonaro e elogiou efusivamente o tom da conversa que tiveram.

Hoje Bolsonaro é o presidente do Brasil, embora só vá tomar posse em, 1º de janeiro próximo. Mas já anunciou que abandonará as Nações Unidas, que descreveu como bando de comunistas, e comentou que a ligação à Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP) não é prioridade. Como decerto não será prioridade o combate às alterações climáticas, visto que prometeu abrir à exploração de minérios na floresta amazônica.

Muitas razões explicam esta tendência dos eleitores para escolher por meios democráticos figuras que contrariam o próprio sentido da democracia. Em grande medida, resulta da desilusão com os movimentos políticos que estiveram no poder, sobretudo a falta de transparência. Os eleitores argumentam que é preciso uma mudança radical e, ao mesmo tempo, acreditam que as instituições conseguirão evitar tentações autoritárias.

O Brasil parece, em tese, preparado para enfrentar, dentro do Estado de Direito, qualquer tentativa de guinada para uma direita que se assemelhe a uma ditadura. Porém, nada é mais incerto. Como disse Madeleine Albright, o fascismo está à espreita e deixamos que entre nas nossas sociedades a passos silenciosos. Primeiro os discriminados são os outros e pouco nos toca, até que um dia somos nós...

*O autor mora, estuda e trabalha em Preston (Lancashire, UK). [email protected]