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Jogadora de futebol roraimense relata preconceito e pede por igualdade de gênero

Amanda está esperançosa e pretende participar da Copa do Mundo de Futebol Feminino

Créditos: Yara Walker
Jogadora de Futebol do Clube São Raimundo, Amanda Sobral, 26 anos - Arquivo pessoal

"Meninas brincam de boneca!" Esta é uma das frases mais ouvidas desde a infância pela atleta roraimense Amanda Sobral, 26 anos, lateral esquerda do time de futebol São Raimundo. Na contramão do que ainda é considerado tabu, Sobral, como é conhecida, já conquistou espaço nos gramados de Boa Vista.

Ao Roraima em Tempo, ela relatou o preconceito sofrido pela escolha da carreira ainda na adolescência e a luta por igualdade de gênero na área profissional desde 2013, ano em que começou a fazer parte do clube.

"Sofria preconceito ainda na época da escola por jogar bola no recreio com os meninos. Tinham muitos apelidos e eu não gostava. Mas não me importava muito. Outra lembrança que tenho do começo da carreira foi quando minha mãe percebeu que não era mais só por brincadeira, quando comecei a jogar em torneios e campeonatos. Ela dizia que futebol não era esporte para meninas", contou.

Conforme a jovem, a atitude da mãe mudou quando a viu jogar pela primeira vez, "nunca vi ela vibrar tanto", lembrou a atleta. Para ela, o apoio da família e dos professores foi fundamental para ingressar de vez no futebol.

"Recebi incentivo da minha mãe e, como sempre fui torcedora do São Paulo, não me recordo do momento em que escolhi entre a boneca e a bola. Não sei com exatidão o momento, pois desde criança sempre me interessei por futebol. Brincar de boneca não era legal, eu me divertia muito mais jogando bola. Eu amo jogar e isso me faz feliz", declarou a jogadora.

MULHER NO FUTEBOL

Quando se trata do futebol feminino, o tema é novo para muitos e dividem opiniões. Segundo Amanda, a maioria das meninas não tem muito apoio e não são incentivadas. Ela enfatizou que a falta da igualdade de gênero para mulheres ainda é um tabu.

"Estamos caminhando, mas a luta é grande e não é só os torcedores irem assistir aos jogos das meninas, precisamos de políticas que destinem recursos para projetos sociais e incentivem nas escolas o desenvolvimento do futebol feminino. Além disso, precisamos de patrocínios. No geral, ainda temos que investir em categorias de base. Existem muitas meninas que sonham em jogar e ser uma profissional de futebol. Afinal estamos falando do país do futebol e as mulheres não são inclusas nessa realidade", completou a atleta.

'MACHISMO'

Amanda relatou também que ainda tem quem diga que esse é um esporte para homens. Ela explicou que a luta é diária contra o machismo.

"As pessoas precisam entender que o futebol para nós não é só um passatempo, pois é um esporte que movimenta nossa vida e dos nossos familiares. Gostaria de um dia poder ver as mulheres trabalhando o futebol como receita salarial. Mas o futebol feminino está crescendo e se desenvolvendo, e há quem diga que um dia isso se torne realidade para nós", frisou.

NO BRASIL

Durante o governo de Getúlio Vargas foi criado o decreto-Lei 3199, proibindo a "prática de esportes incompatíveis com a natureza feminina", entre eles o futebol, que só viria a ser revogado em 1979.

Depois de anos de lutas, o futebol feminino ganhou espaço em 1986, quando a Seleção Feminina Brasileira disputava pela primeira vez uma competição contra os Estados Unidos, um amistoso internacional.

Apesar da derrota por 2x1, o espaço das mulheres no futebol cresceu em ritmo acelerado no Brasil.

Com a proximidade da Copa do Mundo de Futebol Feminino, que ocorrerá no dia 7 de junho deste ano, Amanda mantém a esperança e deixa um recado para quem deseja seguir a carreira.

"Incentivem as crianças a praticarem esporte, incentivem seus amigos e familiares. Através do esporte podemos salvar vidas, tirando pessoas de situações de vulnerabilidade social e psicológicas para um projeto social, por exemplo, onde ali ela poderá desenvolver suas qualidades de maneira saudável. O esporte não é só uma disputa, é uma maneira de viver, de trabalhar e ser feliz", finalizou a jogadora de futebol.

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