Coluna Roraima Alerta

Opinião: Caso do delegado e o reino ameaçado

Caso Romano dos Anjos tem novo episódio; Jalser Renier vê permanência como presidente da Assembleia Legislativa ameaçada


- Divulgação/Polícia Civil

ASSUNTOS

A Coluna repercute dois temas que não possuem ligação direta, aparentemente, mas que no plano de fundo podem ter alguns dos nomes citados envolvidos diretamente nas situações. O primeiro trata do caso Romano do Anjos, ocorrência que chocou a sociedade roraimense em meio ao período eleitoral. O jornalista foi vítima de um sequestro que deixou um claro recado: a intenção de calar a imprensa. O segundo fato se refere ao presidente Jalser Renier (SD), que pode ter que deixar a presidência da Assembleia Legislativa se as ações que pedem isso foram acatadas no Supremo Tribunal Federal (STF).

ABORDAGEM

No domingo (3), uma denúncia feita por um policial militar levou uma equipe da corporação a abordar, de maneira estranha, o delegado da Polícia Civil, João Evangelista. Ele é o responsável por conduzir as investigações do sequestro do jornalista Romano do Anjos. Ao que tudo indica, o caso teria sido praticado por milícia armada, que tem integrantes dentro do Governo e da Assembleia Legislativa, sob orientação de "gente grande". Os nomes dos possíveis mandates do crime não são divulgados. Mas, João foi surpreendido nesta abordagem, que tentou imputar a ele e a um colega escrivão, fatos que ao que tudo indica, não condizem com a realidade.

ACUSAÇÕES

João foi acusado de efetuar disparos na RR-205. Porém, ele garante que a arma foi encaminhada à perícia com todas as munições. Superado isso, passaram a acusar o escrivão que o acompanhava. Contudo, outra vez, não houve indícios de disparo. No registro da abordagem, também foi citado que o delegado João estaria visivelmente embriagado e, por isso, se recusou a fazer o teste do bafômetro. A acusação foi negada pelo escrivão de polícia. Ele afirmou que o delegado não havia consumido bebida alcóolica por estar em tratamento de saúde. O próprio delegado apresentou documentos que atestam o fato. Mesmo alegando serem policiais, os dois foram encaminhados à delegacia.

DESDOBRAMENTOS

Ainda no domingo, as informações sobre o assunto começaram a ser divulgadas aos poucos. A primeira dava conta da denúncia dos disparos. Depois, vieram as declarações do próprio delegado João Evangelista que colocou lenha da fogueira sobre as especulações do fato. O delegado acredita que as acusações sejam mais uma forma de intimidar o avançar da investigação, que indica a presença de milícia armada em Roraima a serviço de gente poderosa. As acusações feitas contra o delegado seriam uma forma de descredibilizar o trabalho investigativo que ele conduziu até o momento.

ESPECULAÇÃO

Toda essa história teve origem no sequestro. Romano foi retirado da própria casa por pessoas que sabiam o que estavam fazendo. O ato foi premeditado. Todos estavam encapuzados, com luvas e roupas pretas. Nada de valor da casa foi levado e o único prejuízo material foi o carro do jornalista queimado. Romano passou a noite em poder dos sequestradores. Mais de um carro foi usado no ato e até o diálogo entre os sequestradores parecia ensaiado para direcionar o depoimento de Romano às autoridades. Tudo isso foi relatado pelo próprio jornalista aos investigadores. O depoimento prestado estava sob sigilo de justiça, mas estranhamente, no dia seguinte o senador Mecia de Jesus (Republicanos) procurou a imprensa local para dizer que não tinha nenhuma participação no crime e que seu nome teria sido citado no depoimento prestado por Romano. Como ele sabia disso? Mecia pediu ainda que a Polícia Federal assumisse a investigação.

PRESSÃO

Pressionado, o governador Antonio Denarium (sem partido) também fez o mesmo pedido por duas vezes. A ideia, ao que tudo indica, seria tirar do Governo do Estado a responsabilidade sobre a condução da investigação que pode implicar gente forte ou até aliados do governador. O FonteBrasil, assinado pelo jornalista Edersen Lima, repercutiu o assunto. De forma sensata, lembrou que Denarium pode não ter participação no caso, mas se optar por proteger quem quer que seja apontado como mandate ou participante, estará cometendo um crime grave. Pedir para que a Polícia Federal assumisse o caso seria uma estratégia para fugir dessa responsabilidade.

QUEM?

A pergunta que fica é quem teria interesse em sequestrar um jornalista e passar recado para a imprensa? Romano, assim como outros profissionais, dedica-se à defender os interesses da população, denunciando os abusos cometidos com dinheiro público. Ele, em especial, vinha de uma série de críticas ao governo e às denúncias de desvios de recursos da Saúde, comprovadas pela Polícia Federal (PF). Romano noticiava o que a população precisava saber: havia interferência de diversos apoiadores de Denarium nas decisões sobre os contratos da saúde. O estado de calamidade, as compras emergenciais, facilitavam o direcionamento das empresas e o desvio do dinheiro. Muitos morreram vítima da corrupção. Foi Denarium que abriu as portas, loteou secretarias e se entregou completamente às pessoas que não têm preocupação com o povo. São pessoas que querem apenas se manter no poder. Hoje, Denarium está acuado, preso e comprometido aos acordos políticos que fez para se livrar dos pedidos de impeachement. Por mais que ele alegue não saber das compras superfaturadas ou das interferências, ele é conivente com as mortes durante a pandemia.

STF

O Supremo Tribunal Federal (STF) deve julgar duas ações contra a permanência de Jalser Renier na presidência da Assembleia Legislativa. A primeira foi ingressada pelo deputado federal Nicoletti (PSL), e a segunda pelo diretório nacional do PSOL. Ambos os pedidos querem evitar que Jalser seja conduzido para o quarto mandato como presidente da Casa e se baseiam na decisão do próprio STF que proibiu a recondução dos presidentes da Câmara e do Senado Federal. As duas ações consideram que a decisão do STF em nível nacional pode ser aplicada aos legislativos estaduais. Com isso, o reinado de Jalser pode chegar ao fim e muita coisa que acontece na Assembleia pode ser desmascarada. Basta que os atuais deputados deixem de ser coniventes e submissos ao poderio de Jalser. A Coluna relembrou ontem e serve para exemplificar hoje também: o famoso áudio do deputado Renato Silva (Republicanos) indica que pode haver muita sujeira debaixo do tapete do plenário da ALE.

PERGUNTAS

  • Quem teria interesse em criar fatos contra o delegado João Evangelista que investiga o caso Romano dos Anjos?
  • Por que o governador Denarium insistiu tanto para a Polícia Federal assumir o caso? Do que ele tem medo?
  • O que pode acontecer se Jalser for deposto da função de presidente da Assembleia Legislativa?

PENSAMENTO DO DIA

"Quem é conivente com um transgressor da Lei, se torna semelhante a ele" - Ditado Popular.


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