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Quais políticos mudaram discurso sobre fechamento da fronteira pós-campanha eleitoral?

Telmário Mota, quando candidato ao governo, disse que a questão da entrada de venezuelanos era culpa da Prefeitura e do Governo Federal


Ele se encontrou no fim de semana com o cônsul da Venezuela em Roraima, para pedir reabertura da fronteira - Reprodução/Facebook/Telmário Mota

Durante a campanha eleitoral do ano de 2018, o tema migração foi bastante utilizado pelos candidatos para atacar quem estava no poder, quanto para conquistar votos com projetos que renderiam o fechamento da fronteira.

Alguns dos nomes são: Antonio Denarium (PSL), então candidato ao governo e hoje chefe do Executivo; Mecias de Jesus (PRB), atualmente senador, e Telmário Mota (PROS), candidato derrotado ao governo.

Mecias, por exemplo, num dos programas eleitorais, defendeu o fechamento da fronteira entre os dois países: "Temos que fechar a fronteira imediatamente", afirmou. No mesmo vídeo, o presidente regional do PRB também assegura que buscará o governo federal. "[...] e exigir critérios na entrada deles aqui. Vou exigir do governo federal que tenha mais compromisso com a cidadania em Roraima", disse.

Num dos programas eleitorais, Jesus avalia que o problema da migração tem que ser resolvido primeiro 'dando um tempo'. Isto é, "fecha a fronteira por uma semana para regularizar, parar todo mundo e dizer: você vai entrar no Brasil a partir de hoje, o que vai fazer em Roraima? Tem emprego garantido? Vai ficar quanto tempo?", detalha a ideia.

Ele complementou, durante o vídeo eleitoral veiculado nos meios de comunicação, que os venezuelanos teriam 15 dias para conseguir empreso. Caso contrário, teria de sair do país. Segundo o então candidato, não era questão de segurança nacional, mas de "respeito com os próprios venezuelanos", ressaltou.

No entanto, no momento em que a fronteira foi fechada, o senador expressou repudio à decisão de Nicolás Maduro. Afirmou, nas redes sociais, que tal atitude é "um desrespeito aos cidadãos venezuelanos e aos próprios organismos internacionais que tentam ajudar a diminuir o sofrimento daquela gente, que sofre com a opressão e, sobretudo com a falta de alimentos e remédios".

"Todo o povo de Roraima e do Brasil se solidariza com nossos irmãos venezuelanos e espera que essa situação de opressão desse regime ditatorial tenha fim em breve", assinam a nota Mecias de Jesus e o filho dele Jhonatan de Jesus.

'MINHA POLÍCIA'

Já Telmário Mota, quando candidato ao governo, disse que a questão da entrada de venezuelanos era culpa da Prefeitura de Boa Vista e do Governo Federal. Durante a campanha, o parlamentar defendeu o fechamento da fronteira e disparou que, caso a União não mandasse polícia ao marco BV-8, para impedir a entrada dos estrangeiros,

"Ou o novo presidente fecha a fronteira e dá condições para estado de Roraima, ou eu vou botar minha polícia e vou fechar e vou criar uma situação institucional entre o estado de Roraima e a nação brasileira", discursou em vídeo compartilhado durante o período eleitoral. Ele perdeu a eleição. Ficou em quarto lugar com 9,4 mil votos, ou 3,5% dos votos válidos.

Agora, depois de ter sido derrotado, mas com quatro anos de mantado na Casa Legislativa, o político defende abertamente a reabertura da fronteira entre os dois países, bloqueada desde o dia 21 de fevereiro. Mota foi inclusive designado como membro de uma comissão do Senado para tratar sobre as questões que envolvem a migração.

Nesse fim de semana, Telmário Mota expressou a busca pela reabertura da fronteira que, segundo ele, tem causado grande impacto na economia local. No Facebook, ao lado cônsul da Venezuela em Roraima, Faustino Tolella Ambrosini, o senador disse que negociou a retirada do bloqueio.

"O nosso prejuízo só cresce e a crise socioeconômica também. Hoje, por exemplo, temos em Pacaraima e Boa Vista, 150 carretas com 30 toneladas cada, e mais 450 toneladas aguardando exportação para a Venezuela. Além dessa forte relação comercial que está inviabilizada, temos a nossa relação cultural e social, que está bastante prejudicada e precisa ser restabelecida. Estamos lutando para que os nossos povos não sofram ainda mais com as consequências do fechamento da fronteira, que já passa de um mês", escreveu.

'DEVOLUÇÃO'

A campanha de Denarium também foi marcada por promessas de fechamento da fronteira. Posterior à vitória em outubro, durante viagem à Brasília, o chefe de Estado afirmou ao portal de notícias UOL que discutia uma plano para devolver venezuelanos ao país vizinho. A ideia foi amplamente divulgada no Brasil e repudiada pelo aliado do governador, o presidente Jair Bolsonaro (PSL).

De acordo com o Portal, Denarium afirmou que o fechamento da fronteira era uma das opções cogitadas para lidar com o grande fluxo de pessoas e defendia a criação do programa de devolução dos imigrantes.

"A gente tem que fazer um programa de retorno deles para a Venezuela também, para suas cidades de origem. Existem venezuelanos que acabam ficando muito tempo em Roraima, não conseguem emprego e alguns deles demonstram desejo de retornar para a Venezuela, só que eles não têm condições financeiras. Então, tem que ser feito um programa de devolução dos venezuelanos, uma ação do governo federal de reintroduzi-los na Venezuela. E existe custo para fazer isso: precisa de passagem, de ônibus, de alimentação", disse Denarium.

Em contrapartida, Bolsonaro disparou que os venezuelanos não eram mercadorias para serem devolvidos. Após a repercussão negativa, Denarium se defendeu e justificou ter sido mal interpretado.

"[...] em nenhum momento, defendi a 'devolução' dos venezuelanos ao seu país, como se tais cidadãos fossem meras mercadorias. Na minha fala, utilizei por duas vezes, o termo 'retorno', uma vez que esse é um desejo manifesto de vários irmãos oriundos desse país. Jamais quis passar a ideia de 'devolução'. Apenas, repito, fui mal interpretado".

Quando a fronteira foi fechada em fevereiro, o pesselista se reuniu com o governador do Estado Bolívar, apoiador de Nicolás Maduro, para negociar a reabertura da fronteira. A justificativa foi o grande impacto negativo sobre o comércio. Ele inclusive afirmou que a fronteira estaria aberta no dia 27 de fevereiro, o que não aconteceu.

"Conversamos com o governador de Bolívar, vizinho de Roraima, sobre a abertura da fronteira e a manutenção do relacionamento comercial. Somos importadores de energia, calcário, fertilizante e combustível, e somos exportadores de alimentos e medicamentos. O objetivo é manter o excelente relacionamento que sempre tivemos. Com a fronteira aberta, podemos liberar os caminhões brasileiros com calcário e fertilizantes", comentou Denarium.

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