Questão de Opinião

Fake news, a arma da contra-informação


O colunista André Hoelzle

ANDRÉ HOEZLE*

Mesmo nos tempos mais negros, os EUA sempre representaram o ideal da democracia em que a voz coletiva, 'Nós, o povo', se sobrepõe ao poder absoluto. Talvez a pior consequência deste incerto presente seja a propositada confusão sobre o sentido das falsas notícias, muitas vezes usadas como arma de contrainformação e agitação política

Aprendi com meu pai, o jornalista Plínio Vicente, um dos editores deste jornal, que o profissional de comunicação não deve ter medo da notícia, mas precisa se contra a antinotícia. O prazer mórbido cultivado por milhões de pessoas, que fazem dessa prática sua arma de ataque, sempre foi o instrumento de fabricação das fake news. Fazer imprensa é coisa séria, como também me ensinou meu pai, pois é com as palavras que se forma opinião, com a qual se tem o poder de mobilizar as massas.

O presidente Donald Trump é o caso típico de quem se mostra um inimigo da noticia verdadeira. Por isso, mais de 300 jornais americanos publicaram semana passada editoriais a favor da liberdade de imprensa e de expressão, pilar da Carta dos Direitos que integra a Constituição dos EUA. A campanha desencadeada pelo jornal "The Globe Boston" teve adesão de publicações relevantes que assim reagem ao discurso de Trump que acusa a Comunicação Social de responsável por notícias falsas para confundir os americanos. Os alvos das críticas responderam que o presidente considera mentira tudo o que não lhe agrada e foge do debate democrático.

Mesmo nos tempos mais negros, os EUA sempre representaram o ideal da democracia em que a voz coletiva, "Nós, o povo", se sobrepõe ao poder absoluto. Talvez a pior consequência deste incerto presente seja a propositada confusão sobre o sentido das falsas notícias. O significado literal aponta para notícias falsas que circulam com propósitos vários, sendo muitas vezes usadas como arma de contrainformação e agitação política. Misturam-se verdades e mentiras, recria-se a realidade através de "fatos alternativos" que trafegam nas redes sociais como informação credível.

Atualmente, debate-se aqui no Reino Unido, a leitura como disciplina obrigatória

no ensino secundário. Não sei se obrigar a leitura seja algo positivo, pois entendo que o melhor seria estimular o gosto pela leitura desde a infância mais infante. O debate sobre as competências essenciais está se tornando o centro nesse episódio em vez de refletir sobre o perfil do aluno quando ele conclui a escolaridade obrigatória e a capacidade que deve adquirir nessa fase do aprendizado para fugir das garras do populismo e poder formar opinião correta, sensata e ética.

O filósofo português José Gil, pouco lido no Brasil, creio, mas considerado uma voz importante aqui na Europa, explica que o populismo não é uma doutrina política, nem uma ideologia, nem uma visão do mundo. O populismo escolhe fragmentos de ideias, promessas, palavras de ordem que seduzem as audiências. A comunicação direta é a arma maior, laço que exerce poder de atração. Mas que não pode ser aprisionada pelos malfeitores da fake news. Por isso, cabe aos professores cumprirem sua sagrada missão de desenvolver a educação para a cidadania, atada à ética e ao respeito, se quisermos salvar a democracia.

*O autor mora, estuda e trabalha em Preston (Lancashire, UK). [email protected]


SEE ALSO ...