Questão de Opinião

O imperador do Japão e os navegadores portugueses

Créditos: ANDRÉ HOELZLE

O imperador do Japão e os navegadores portugueses

 

ANDRÉ HOELZLE*

 

"Falar de Akihito, o primeiro imperador a abdicar em 200 anos de história nipônica, é um fato que ganha importância ainda maior porque já era a sua família que dava imperadores ao Japão quando os portugueses chegaram ao arquipélago em 1543. Aliás, os japoneses nunca conheceram outra dinastia nos últimos dois mil anos pelo menos".

 

Eu havia chegado à Europa para estudar numa universidade de León, no norte da Espanha. Como a passagem de trem até Lisboa custava apenas 17 dólares, hoje cerca de 70 reais, resolvi viajar à capital portuguesa para conhecer alguns parentes da descendência lusitana de meu pai, o jornalista Plínio Vicente.

Por pura coincidência, estava sendo realizada a exposição mundial, e na programação o dia 26 de maio de 1998 se transformara numa data especial: a primeira visita do casal imperial japonês, que se tornou um evento excepcional para Expo de Lisboa, ganhava as primeiras páginas dos jornais e as manchetes dos telejornais. Não era a primeira visita de Akihito e Michiko a Portugal, mas sua presença se tornou um momento especial na celebração dos Oceanos que 500 anos antes levaram os navegadores lusitanos até ao Oriente. Ademais, a presença do casal imperial relembrava o quanto são especiais as relações entre portugueses e japoneses.

Falar de Akihito, o primeiro imperador a abdicar em 200 anos de história nipônica, é um fato que ganha importância ainda maior porque já era a sua família que dava imperadores ao Japão quando os portugueses chegaram ao arquipélago em 1543. Aliás, os japoneses nunca conheceram outra dinastia nos últimos dois mil anos pelo menos. Mesmo quando o poder efetivo recaia nos xóguns, os imperadores continuaram sendo amados pelo povo.

Imagine-se então o choque que significou a abdicação dia 29 de abril de 2018, feriado nacional que celebra o Dia do Imperador, criado para homenagear Hiroito e que é também, coincidentemente o aniversário de meu pai.

O pai de Akihito, mesmo tendo assinado a rendição do Japão aos Estados Unidos no final da grande guerra, o que ele próprio considerou um ato vergonhoso - e não praticou haraquiri, como mandava a tradição -, ainda assim era considerado um deus.

Akihito deixou de ser uma divindade, como foram todos os que chegaram ao trono. Mas um dos desafios do Japão de hoje não é isso, mas o envelhecimento da população, que resulta de duas causas: baixa taxa de natalidade e a elevada qualidade de vida, que potencia o número de octogenários, nonagenários e até centenários. Por isso a importação cada vez mais de mão-de-obra jovem do estrangeiro.

Akihito, embora reivindicando origem divina, assemelha-se, pois, a muitos japoneses da sua idade, cuja saúde já não aconselha demasiado esforço e exposição. Também, dado o mediatismo do mundo de hoje, é uma questão de proteção da privacidade e da dignidade, e nesse desejo o monarca japonês está bem acompanhado, desde Bento XVI à rainha Beatriz da Holanda, dois casos recentes de abdicação.
País singular (Samuel Huntington dizia que era por si só uma das nove civilizações em que o mundo estaria dividido), o Japão é uma democracia que convive na perfeição com o seu imperador. Certamente continuará assim com Naruhito, que conhece tão bem como o pai como o contato com o mundo moderno chegou ao Japão há meio milênio pelas mãos dos portugueses. E que deixaram uma expressão bem brasileira no seu vocabulário: Né?

 

*O autor mora, estuda e trabalha em Preston (Lancashire, UK). [email protected]

 

 

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