Questão de Opinião

Paralelo 17


Nos anos 80, o corredor que dividia Estadão e Jornal da Tarde, no 6º andar da sede do Limão, era chamado de Paralelo 17 -alusão à zona desmilitarizada que durante a guerra separava em norte e sul os dois Vietnãs.

Depois de uma passagem pelo saudoso e já falecido Jornal da Tarde, cheguei ao centenário jornal em 28 de outubro de 1979, vindo do Jornal da Cidade, de Jundiaí. Logo nos primeiros dias notei que as disputas entre as duas redações eram marcadas por críticas ácidas, escoradas no comportamento dos jornalistas que trabalhavam nos dois veículos.

Para os do Estadão, rotulados de conservadores e anticomunistas, os do JT, liberais modernistas, eram um bando de esquerdinhas agitadores. Aos engravatados do Estadão chamavam de dinossauros.

O que acabou mesmo criando as bases de um relacionamento mais cordato foram os "rachas". Às sextas-feiras, depois do fechamento, os plantonistas se encontravam e, munidos de uma bola feita com jornais velhos amarrados com barbante, iam para o Paralelo 17, transformado numa quadra de futebol de salão, onde a "pelada" rolava até de madrugada.

Vítima da poliomielite, creio ter sido um dos primeiros deficientes a trabalhar na redação do Estadão. No começo sentia-me meio deslocado e restava-me, portanto, a opção de ficar na "arquibancada", assistindo aos "pegas" junto com o público feminino, numa das entradas laterais das redações.

Lá pelas tantas, quando chegava o pessoal da limpeza, a gente ia embora. Para casa, mesmo! Por incrível que possa parecer, os dois eram os únicos grandes jornais que não tinham um bar como vizinho.

Numa dessas noites, Fausto Silva, o Faustão, com quem eu costumava dividir plantões - eu na Política, ele no Esporte -, teve que sair mais cedo para um compromisso qualquer e a redação do Estadão se viu desfalcada de seu goleiro.

"E agora?", perguntou alguém. Foi então que, num espasmo de coragem, gritei: "Eu vou!". Houve então um interminável minuto de silêncio, até que o pessoal do JT, antegozando uma vitória líquida e certa, sentenciou: "É justo. O Plínio também tem o direito de jogar".

Meus companheiros da margem direita do Paralelo 17 se juntaram numa confabulação entremeada de cochichos e ao final apresentaram modificações às regras: "Ele fica sentado entre as duas lixeiras (serviam de postes divisórios para as metas) e só vale gol na altura até onde a mão alcança".

Para resolver a questão das distâncias laterais e verticais, a baliza que eu defenderia foi afastada até à porta de entrada do corredor e traves e travessão demarcados com fita crepe. Claro que a gente perdeu. Não chegou a ser por uma grande diferença, mas não consegui escapar à acusação de ter engolido alguns "frangos".

O assunto varou a semana em meio a um monte de brincadeiras e sacanagens. No curso delas, entretanto, pude saborear meus momentos de glória e sentir que, definitivamente, daquele momento em diante passei a ser um deles...

PLÍNIO VICENTE - O autor é jornalista e editor de Opinião, Economia e Mundo do Roraima em Tempo. [email protected]

 


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