Questão de Opinião

Sem tirar nem pôr

Muitas chagas do subdesenvolvimento assolam a América Latina contemporânea. No quesito controle da mídia, os latinos não devem a ninguém


Há poucas décadas, ser tirano era mais simples. Bastava usar farda ou cercar-se de urutus. Ninguém se preocupava com a voz das urnas, Parlamentos ou juízes com cabeça própria.

Se a imprensa insistia, era só parar as máquinas, fechar a gráfica, como lembrou o jornalista norte-americano Mark Margolis em sua análise sobre a liberdade de imprensa. Pare ele, os autoritários usam guayaberas e ternos finos e adoram as eleições, desde que ganhem, resultado quase garantido pelas regras oficiais.

No entanto, o que mais distingue o autoritário de hoje do modelo antigo é sua relação com a mídia. Com audiência globalizada e informação que voa à velocidade da internet, não condiz aos palacianos atuais agirem de forma bruta. Com um olho nas pesquisas, aprenderam a aveludar a mordaça. Ou então adoçar a boca dos venais, que se vendem por um agrado.

Calar a crítica com discurso democrático virou prática padrão em diversos países das Américas. Faz parte da pauta das "ditaduras do século 21", nas palavras do cientista político equatoriano Osvaldo Hurtado - paródia evidente ao socialismo do século 21 de Hugo Chávez, ideário da revolução bolivariana.

Muitas chagas do subdesenvolvimento assolam a América Latina contemporânea. No quesito controle da mídia, os latinos não devem a ninguém. Caso a caso, os abusos parecem até desvios eventuais de uma região onde a democracia ainda está em transição. No seu conjunto, representam uma aberração continental.

Todavia, o destaque vai mesmo para as nações bolivarianas e simpatizantes, onde os governos partem para cima da mídia com golpes estudados. Neles impera a lei Robin Hood: apropriar-se das concessões de rádio e TV dos meios privados para redistribuí-las à mídia estatal e da "comunidade", entes confiáveis, sempre dispostos a divulgar a boa-nova do mandatário.

No Equador, na época de Rafael Correa, a imprensa independente, antes majoritária, encolheu para um terço do mercado. Na Bolívia, Evo Morales quis mais: reduzir a mídia opositora a 10% ou 20% do total das emissoras do país.

Outros governos partem para a guerra econômica. Na Venezuela, Nicolás Maduro simplesmente negou à imprensa acesso aos dólares que precisa para importar papel, tinta e equipamentos para rodar os jornais.

Na Argentina, a então presidente Cristina Kirchner, hoje processada por corrupção, possessa com a crítica, mandou fechar a torneira para La Nación, El Clarín e outras empresas editoriais inconvenientes. A meta atingiu 17 jornais em Buenos Aires que no governo antes de Maurício Macri perderam 75% da sua receita de propaganda oficial.

Embora ainda devagar, Jair Bolsonaro está seguindo o mesmo caminho. O que não se entende é por que um político nacionalista e que se diz democrático, repete o mesmo comportamento dos nossos vizinhos das ditaduras de esquerda. Estaria nascendo pelas mãos do presidente brasileiro, legitimamente eleito, uma ditadura de direita? Pelo andar da carruagem sim, sem tirar nem pôr.

PLINIO VICENTE - O autor é jornalista e editor setorial do Roraima em Tempo.


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