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'Brasileiros não foram deixados sozinhos', afirma Alto Comissário da ONU em Roraima

Em visita ao Estado, representante disse que brasileiros mantêm positividade em relação à imigração e procura recursos para crise

Créditos: Ana Paula Lima
Felippo Grandi discursou no Rondon 3 e visitou o local - Ana Paula Lima/Roraima em Tempo

"Vim ao Brasil para agradecer a hospitalidade de [receber] tantos venezuelanos no país", com gratidão, o Alto Comissário das Organizações das Nações Unidas (ONU) para Refugiados, Felippo Grandi, iniciou o discurso. Em passagem inédita por Roraima nessa sexta-feira (16), o comissário veio conhecer de perto a realidade local, bem como a resposta humanitária frente à crise migratória.

Antes de chegar ao Abrigo Rondon 3, no bairro 13 de Setembro, ele conheceu o Abrigo do Jardim Floresta e as proximidades da Rodoviária Internacional de Boa Vista. O representante passou dois dias em Santiago, no Chile, antes de vir ao Brasil, para averiguar os impactos causados com a permanência dos imigrantes e as necessidades dessa população.

No país chileno, atravessam, em média, cinco mil venezuelanos diariamente. Na fronteira com Roraima, os números são menor: 500 pessoas, ou seja, 10% do que Chile recebe. A ONU estima que mais de 4,3 milhões de pessoas já deixaram a Venezuela nos últimos anos.

Nas visitas e conversas com representantes governamentais, Grandi pretende conseguir fundos para aplicação nas ações frente à crise. De acordo com ele, houve menos de 30% de financiamento, que chega a US$ 738 milhões. No Brasil, o comissário teve encontro com ministros da Casa Civil, Relações Exteriores, Cidadania, Justiça e do Ministério da Defesa, responsáveis por coordenar e executar a recepção de venezuelanos no país.

"Estou muito impressionado pelos esforços dos governos, da sociedade civil, Organizações Não-Governamentais [ONGs] em receber de forma generosa milhares de venezuelanos. Claro, é um grande desafio. A América Latina nunca viu um movimento de pessoas desse tamanho", destacou, ao acrescentar que a eficiência da Operação Acolhida é inspiradora.

Grandi justificou que os trabalhos da Operação não se limitam em apenas receber os venezuelanos, mas também em reintegrá-los na sociedade. "É um programa inovador e importante que devemos todos apoiar", completou.

DESTAQUES

O Alto Comissário afirmou que há inúmeros desafios em relação ao cenário de migração para serem resolvidos com o governo. Com foco na inserção de grupos mais vulneráveis, Grandi disse que mulheres, mães solteiras, indígenas e comunidade LGBTI devem ter mais atenção e garantiu que essa foi uma das pautas com representantes do governo para que haja ações representativas.

"Em segundo lugar, não devemos se esquecer da comunidade brasileira está fazendo, especialmente em Roraima, um estado pequeno e com poucos recursos, e que agora tem que dividir com imigrantes. É importante que as ações aos estrangeiros também beneficiem a comunidade local. É importante que eu veja [a realidade] para trabalharmos nisso", frisou.

Felippo Grandi afirmou que a situação não acontece apenas no Brasil, mas sim em países vizinhos. Frisou que o governo brasileiro ajudando os imigrantes mostra liderança em dar exemplos aos outros.

"Eu agradeço os milhões de reais gastos na crise. Mas precisamos de ajuda de outros países. Os países da região não devem ser deixados sozinhos para lidarem com a crise venezuelana. Estou completamente comprometido em fazer esse apelo para ter ajuda internacional", garantiu.

O comissário justificou que a situação em Roraima já teve melhoras, como a diminuição de venezuelanos em situação de rua, mas que todos os problemas ainda não foram resolvidos. "Eu preciso ver para que eu possa falar com o mundo e conseguir os recursos. Haverá solução por eu estar aqui? Não, mas terá melhorias", prosseguiu, afirmando que representa uma organização para refugiados. Grandi disse ainda que não ignora o sofrimento da população local.

FUTURO

Ao ser questionado sobre as ações que devem ser feitas com os imigrantes, o comissário garantiu que, junto com o governo federal, a Operação Acolhida deve continuar e ser expandida. Ele não soube informar quanto de recurso deve ser alocado pelo governo para Roraima na continuidade das atividades.

A ONU já gastou, em apenas uma agência, mais de R$ 80 milhões neste ano e está em conversas com o governo para calcular o valor do ano que vem. Sobre o conflito em Pacaraima, em agosto de 2018, Grandi respondeu que visitou muitas regiões e percebeu clima de conflito com a chegada da imigração, mas que os brasileiros têm mantido atitude positiva.

"Temos que continuar assim e focar em localidades que têm muitos venezuelanos, onde a pressão é maior. Precisamos ter certeza que a tensão não se torne xenofobia ou violência. Receio que a maior responsabilidade sobre isso é das autoridades brasileiras e também de lideranças venezuelanas. As pessoas precisam lidar com isso de maneira responsável. Meu trabalho é levantar fundos para que os brasileiros vejam que não foram deixados sozinhos", encerrou.

VISITA

Após o discurso, Grandi fez uma breve visita no Rondon 3 e ouviu alguns moradores sobre a situação deixada na venezuelana. O Alto Comissário iria visitar Pacaraima neste sábado (17), mas seguiu para Manaus, onde vai acompanhar o processo de interiorização.