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Raposa Serra do Sol: índios atravessam rio a pé e superam falta de transporte, merenda e luz para chegar ao ensino superior

Caminhadas, sem iluminação e pouco material didático são motivações para jovens estudantes que desejam retornar às comunidades com o diploma na mão

Créditos: Ana Paula Lima
Cledson durante travessia de rio na região da Raposa Serra do Sol - Ana Paula Lima/Roraima em Tempo

Às 18h45 a mochila vermelha de Cledson Sampaio, 18 anos, já está nas costas. Barra da calça dobrada e o tênis nas mãos fazem parte do 'ritual' que o estudante indígena segue diariamente para ir à escola.

Os últimos raios de sol contornam a paisagem da Terra Indígena Raposa Serra do Sol, no município de Normandia, extremo Norte de Roraima, mas que escondem a precariedade do ensino público e as barreiras para se chegar ao ensino superior. De Boa Vista até lá são 268 km, percurso feito pelo Roraima em Tempo para conhecer de perto a realidade da educação indígena. 

Cledson tem à frente um caminho de pouca visibilidade. O trajeto inicia na comunidade indígena Parnásio e finaliza na Raposa 1. A persistência em estudar é marcada pela calma com que se arrastam os solitários pés e os sons de animais noturnos que quebram o silêncio da estrada.

Depois de 20 minutos o estudante se depara com estrada de chão de terra batido e confere se a calça está dobrada o suficiente antes de atravessar o rio. São 19h07 e a escuridão é completa.

Mas a caminhada não cessou: 15 minutos ainda o separam da Escola Estadual Indígena José Viriato, onde projeta o sonho do ensino superior em meio às precárias condições do espaço público.

Na Raposa Serra do Sol, palco de conflitos internacionalmente conhecidos, a invisibilidade encobre a exigência de direitos básicos garantidos na Constituição Federal. O transporte escolar, por exemplo, durou apenas um mês na região.

Poucas salas têm iluminação, contudo, elas são clandestinas - Foto: Ana Paula Lima/Roraima em Tempo

A unidade escolar não tem iluminação em todas as salas. As que conseguem escapar do breu possuem lâmpadas ligadas clandestinamente. Os estudantes chegam a ser liberados às 9h por falta merenda. Às vezes, os professores compram o alimento para que as crianças não fiquem sem comer. A escola não tem cozinheiro e o material de limpeza quem compra é o zelador.

Materiais didáticos completos é uma realidade muito distante, igual a faculdade que Cledson quer chegar. Mesmo assim, desistir dos estudos é hipótese descartada pelo estudante indígena, pois ele entente que apenas a formação poderá leva-lo a uma cadeira na universidade.

"Quero cursar uma faculdade para poder algum dia votar à comunidade e trazer melhorias que necessitamos", relatou de forma tímida no espaço do refeitório que possui iluminação.

Cledson quer ser professor de matemática e, assim, dar aula na escola. Para ele será uma forma de ajudar os gestores e as futuras gerações a não enfrentarem os mesmos obstáculos que existem atualmente.

As limitações impostas pela ausência do Poder Público na única escola da região já dura mais de uma década. Alunos ingressam no ensino fundamental sabendo que o ensino médio é ministrado sob iluminação precária. É a 'prova de fogo' na escola indígena. Na família de Cledson, que está no 2º ano, somente o irmão saiu da comunidade em busca do diploma universitário.

"É muita dificuldade. No inverno é muita lama e chuva. Tenho muito medo na mata. A educação talvez não mude todos, mas uma parte. Não vou desistir. Quero continuar a estudar para realizar o meu sonho de ser professor. Poderia dar aula em outras comunidades da Raposa, vejo que muitos têm problema com matemática", projetou.

Toda a família de Cledson o incentiva à graduação. Para ele, "a universidade é tudo o a escola não é", em termos de estrutura. 

O SONHO

Escola atende mais de 300 alunos de três comunidades na Raposa Serra do Sol - Foto: Ana Paula Lima/Roraima em Tempo

Pela manhã, Jeferson Firmino, de 13 anos, conversou com a reportagem do lado de fora da escola devido ao calor na unidade. O adolescente já sente receio por 2020, quando ingressa o 1º ano do ensino médio.

O sentimento flui frente à necessidade de atravessar o rio por volta de 23h, horário que termina a aula dessa modalidade. Contudo, ele afirma que vai usar a dificuldade como motivação para terminar os estudos.

"Meu sonho é ser veterinário. Meu pai estudou até o 9º e minha mãe até o 8º [do ensino fundamental]. A vontade que eu tenho [do ensino superior] veio deles, que não conseguiram estudar e eu quero ir muito além deles. Quero continuar e honrar eles, que me pediram para terminar meus estudos. Vou levar isso no meu coração", disse enquanto fazia uma atividade de geografia no refeitório da instituição.

Janelas sem vidros e ventiladores empoeirados pela falta de uso complementam a extensa lista dos problemas que afetam o aprendizado de Jéssica Karine Raposo, de 17 anos. Ela almeja a formação em Direito para atuar nas comunidades, em defesa dos indígenas. "Eu tenho esse desejo no meu coração. A maioria dos jovens [daqui] quer isso também, mas nem todos têm a garra, porque é muito difícil", contou.

Estudante do 3º ano, a preocupação é com o atraso de conteúdos ditados dentro das três salas de aulas, já que o ano letivo de 2019 teve início apenas em maio, por determinação do governo estadual, devido à crise financeira que interferiu nos contratos de merenda, transporte escolar e professores indígenas. As aulas só terminam em março do ano que vem.

"Quero morar aqui, minha casa é aqui. Penso que quando me formar, a Raposa já vai estar maior e eu vou poder trabalhar... não sei, mas quero ajudar a comunidade de alguma forma, nem que seja voluntária. O ensino superior, com certeza, está ligado à realização disso", relatou. Karina procura diminuir os atrasos e vai até a escola, único lugar com internet na região, para baixar vídeo-aulas para o vestibular.

AS PRECARIEDADES

 

Os quase 20 anos de solicitações sem retornos de reforma para a José Viriato resultaram na precariedade do espaço. Não há forro na sala dos professores. Há outros ambientes internos que estão com buracos, portas quebradas e servem de moradia para bichos. Para completar o triste cenário da educação indígena na Raposa Serra do Sol, existe uma vala aberta no pátio da escola.

A biblioteca tem uma única lâmpada e o acervo nunca recebeu literatura ficcional. Anos atrás, duas televisões foram enviadas à unidade para serem utilizadas como material multimídia. Nunca foram usadas, porque a fiação elétrica não permite a ligação dos aparelhos.

"Tem alunos que não conhecem outra realidade fora da comunidade. A nossa cultura já foi influenciada e depois que conhecemos que temos direto igual a outros povos, vamos correr atrás. Somos indígenas e também somos roraimenses, brasileiros. Mas o governo não investe e parece que não tem interesse", lamentou o coordenador pedagógico Wilton Magno, que incentiva os alunos a que não deixarem de pensar na continuidade dos estudos e ingressarem na graduação.

O FUTURO

Murilo se tornou líder dos estudantes e mobiliza toda a comunidade para cobrar o governo do Estado por melhorias - Foto: Ana Paula Lima/Roraima em Tempo

Retorno para a comunidade. Orgulho de ser indígena. Representatividade para gerações futuras. As características do jovem Murilo Januário Moraes deu início a uma temporária liderança estudantil para reivindicar os problemas da unidade, que atende 354 alunos das comunidades Raposa 1, Raposa 2 e Parnásio.

Com 17 anos, ele inicia o 3º ano. O medo está na realização do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) e o vestibular, para um dia ocupar cadeira do curso de Direito. "Não tem materiais suficientes para estudarmos. Os livros que o governo manda são paupérrimos. Isso me prejudica. Eu quero melhorias para minha escola, para o meu povo", lamentou.

O sentimento é de que as comunidades indígenas não podem sonhar com o ensino superior e as pedras no caminho se tornam maiores para eles do que em outras localidades. Depois que se acaba a carreira na escola, um certificado emitido pela Secretaria Estadual de Educação e Desporto (Seed) pode demorar anos para chegar.

"Aqui tudo é lento. Já pensou eu chegar em Boa Vista e não saber de nada que eles estudam lá? Vou ser discriminado por ser índio, mais ainda por ser chamado de burro. Dizem que o índio é burro e preguiçoso, mas temos a mesma capacidade que o branco tem. Ele pode ser um cientista. Os que se formaram [no superior] aqui, eles não pensaram em desistir dos sonhos deles. Eu me espelho nisso", declarou.

Na premissa de dar orgulho à Raposa 1, o jovem quer ser advogado para atuar em causas indígenas e incentivar outras pessoas a lutarem por mais oportunidades, e dar voz aos povos indígenas. "Quero defender os meus parentes índios", finalizou.

Janelas não têm vidro e portas estão danificadas na Escola Indígenas - Foto: Ana Paula Lima/Roraima em Tempo

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