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Transtornos mentais afastam um policial a cada 15 dias em Roraima

Dado evidencia pressão que agentes sofrem no trabalho; treinados para não falar sobre sentimentos, policiais afastados contam que sofrem preconceito

Créditos: Winicyus Gonçalves
Aumento da criminalidade em Roraima deixa o profissional de segurança mais apreensivo - Edinaldo Morais/Roraima em Tempo

A pessoa que vive em alerta permanente, estresse, situações de risco, confronto e medo, talvez não saiba que o acúmulo dessas situações pode provocar algum problema mental. Se tudo isso faz parte da profissão e a pessoa não conta para ninguém o que está vivendo? Esta é a realidade que os policiais de Roraima enfrentam diariamente.

Nos últimos três anos, a Polícia Militar de Roraima registrou 98 afastamentos por transtornos mentais. Quando se levam em conta apenas os dados de 2018, foram 27 afastamentos: 21 de policiais militares e seis de policiais civis. Os dados foram enviados com exclusividade ao Roraima em Tempo pelas instituições competentes.

A reportagem compilou os números recebidos pelas corporações. A média é de um policial afastado a cada 15 dias no estado. Um dado preocupante, segundo o especialista em segurança, professor da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), Cláudio Chaves Beato Filho, ainda mais numa profissão que tem como missão proteger a sociedade.

"Por mais que todo esse tratamento queira trabalhar essa questão da invencibilidade, não é nada disso. Eles morrem, se ferem, sofrem, mas será que eles estão tendo espaço para falar sobre isso?", questiona Filho.

AVALIAÇÃO

Roraima faz avaliação psicológica para quem quer ingressar na Polícia Civil ou Militar. Inclusive, a avaliação está prevista nas próximas fases do concurso da Polícia Militar (PM), retomado pelo governo após ter sido cancelado em fevereiro. No entanto, depois da entrada, o cenário é outro. Roraima não faz exames periódicos com toda a tropa.

De acordo com a Polícia Civil, a Secretaria de Segurança Pública (Sesp) é quem gerencia o Programa de Saúde Mental e Qualidade de Vida dos profissionais de Segurança Pública, por meio do Centro de Qualidade de Vida (CQV). No entanto, o acompanhamento só passa a ser feito quando o policial procura o CQV.

Cada Instituição Policial Estadual dispõe do Núcleo de Saúde e Auxílio Psicossocial (NSAP), integrado ao CQV, que atualmente é coordenado pela Academia de Polícia Integrada Coronel Santiago (APICS). O CQV é formado por psicólogos, assistentes sociais e outros profissionais. Atualmente, uma psicóloga tem acompanhado 45 agentes da Polícia Civil.

PSICÓLOGOS

A PM de Roraima dispõe de três psicólogos no quadro de saúde da instituição. Um para cada 538 policiais, de acordo com dados do Portal da Transparência. Mas para ser medicado ou afastado o policial paciente tem que ser avaliado por um psiquiatra, e o número ainda é menor, apenas um atende a toda a rede.

Um militar que não quis se identificar foi realocado e, atualmente, faz apenas serviços internos. Dentro da corporação, ele ainda teve que enfrentar o preconceito. "Muita gente falava para mim que não era nada, que é só o stress do trabalho, e muitos se sentem constrangidos em falar dos problemas com um superior hierárquico, que também é policial. Então, o próprio policial se priva de procurar essa ajuda", detalhou.

PMRR dispõe de três psicólogos no quadro de saúde, sendo um para cada 538 policiais

EQUILÍBRIO

"Se o policial não está com a saúde mental equilibrada ele pode tomar uma decisão equivocada. Um policial está com uma arma na mão e pode inclusive atentar contra a própria vida e obviamente contra a sociedade", avaliou o especialista Cláudio Filho.

Apesar disso, Roraima não disponibilizou dados sobre suicídios de agentes ao Anuário Brasileiro de Segurança Pública. Questionada pela reportagem, a Polícia Civil informou que apenas um suicídio foi registrado, em 2017. No ano passado, 80 agentes tiraram a vida no Brasil.

"O Brasil não reconhece esse problema como típico de segurança pública. Você põe a vida do policial em risco, daqueles que estão entorno e a sociedade. É uma omissão histórica", complementou Filho.

Isso tudo acontece no estado onde os homicídios aumentaram 66,6% em um ano, enquanto as mortes decorrentes de intervenções policiais também apresentaram alta: cerca de 60,3% entre 2017 e 2018.

No ano passado, quatro agentes morreram. O número é o maior do estado nos últimos cinco anos, de acordo com o Anuário Brasileiro da Segurança Pública.

Em um ano, o número de mortes decorrentes de intervenções de policiais em serviço triplicou: de 8 para 24. Apesar disso, o estudo afirma que não há como atestar a qualidade dos dados, pois a Secretaria optou por não responder o questionário de avaliação, que poderia confirmar fielmente os índices.

Mas de acordo com o especialista, faltam políticas públicas mais amplas que facilitem o acesso do policial a um tratamento adequado. "Se a gente quiser fazer um sistema de segurança efetivo, a gente precisa proteger os profissionais de segurança pública", finalizou.

REALIDADE

A psicóloga da PM, Darlim Mezomo, explicou que as principais razões que levam os policiais ao adoecimento psíquico não estão relacionadas à profissão, mas sim às questões pessoais.

"Não tem sido o trabalho em si que está gerando o adoecimento psíquico. Porque um afastamento não é um stress. [Para ocorrer] o afastamento tem que estar numa depressão, por exemplo, stress pós-traumático. É claro que tem situações ocasionadas por um trauma, uma situação grave que aconteceu. Mas a gente não pode generalizar", afirmou.

A profissional explicou que diferente das pessoas que não são policiais, os agentes produzem muito mais o hormônio cortisol, responsável pelo stress. Ela exemplificou que um casamento ou uma promoção no emprego podem gerar ansiedade. Contudo, os policiais estão constantemente em estado de alerta, fazendo com o hormônio seja produzido ainda mais.

"Só que se você está há vários dias produzindo o hormônio, o tempo inteiro preocupado, correndo risco, porque o policial corre, ele não tem medo, mas tem noção do perigo, isso faz com que ele produza o cortisol, desencadeando os sintomas. Concluí em 2018 que os principais sintomas nos policiais militares são insônia, irritabilidade e tensão muscular", detalhou.

Contudo, outras situações também contribuem para o adoecimento. A psicóloga lembrou que a questão financeira é uma delas, e que no ano passado, quando houve atraso no pagamento das categorias, o nível de stress subiu consideravelmente. "Podemos dizer que foi ocasionado, sim, por uma situação", completou.

Em Pacaraima há outra condição específica. Devido ao fluxo migratório, policiais civis e militares e bombeiros apresentam índice de stress elevado. Darlim frisou que nos conflitos do ano passado, o número de imigrantes era reduzido, o que contribuía para atuação das polícias. Atualmente, o cenário é diferente.  

"Todos eles estão com stress elevado e não posso dizer que são problemas pessoais. É ocasionado pelo fluxo migratório, que causou stress muito elevado, isso eu posso afirmar. Eles têm medo de acontecer algo crítico e não tenham como controlar, porque a população é enorme de venezuelanos. Eles se unem e, muitas vezes, não permitem que a polícia faça o seu papel", declarou.

PREVENÇÃO

Luto, perda, conflitos conjugais são algumas explicações para o afastamento do policial, guarda ou agente de trânsito, segundo a psicóloga. Além disso, ela afirmou que a função que o agente exerce é o motivo de fazê-lo se sentir bem, preferindo estar atuando a ficar em casa. Por causa disso, eles já estão sendo preparados para se aposentar.

"Hoje, a gente ver policiais que poderiam estar afastados, que estão com algum problema, mas ele diz: 'Não me deixa em casa. Não me afaste'. A gente vai trabalhando essa adaptação. Tira a arma, coloca no administrativo, fazendo parte da equipe, mas não agindo diretamente, porque ele gosta do que ele faz", assegurou.

Darlim disse que está sendo feita uma bateria de teste em parceria no curso do Bope. Com isso, são avaliados autoestima, autoeficácia, autocontrole, engajamento, realização no trabalho e na vida, esgotamento causado pela função e o conflito família-trabalho. Os resultados são repassados ao policial, como forma de prevenir stress futuro e ele possa enfrentar as dificuldades.

A psicóloga citou o aumento da criminalidade em Roraima, que deixa o profissional mais apreensivo, levando, às vezes, a tomar decisões mais severas. "O que precisamos fazer para que ele se desenvolva pessoalmente e profissionalmente, para as situações que vão vir do stress, que é normal no trabalho, ele consiga enfrentar. Não adianta apenas avaliar quem está com stress, quem está afastado. Tenho que fazer ele se conhecer, saber qual é a potencialidade dele, a dificuldade", disse.

Por fim, a psicóloga falou sobre o Projeto Conhecendo a Tropa, que consiste em conhecer um a um dos policiais do estado. A ideia é trabalhar com eles as dificuldades e potencializá-los a enfrentar quaisquer situações.

"Quem afasta é o psiquiatra, mas os psicólogos acreditam que dá para fazer a readaptação desse profissional. Ficar só em casa não vai ajudar. Ele tem que aprender a lidar com as frustrações, dificuldades, problemas", finalizou.